terça-feira, 7 de janeiro de 2014

CAPITULO 1

                               

O vento ainda quente, do longo Verão que estava quase no fim, fazia rodopiar as poeiras do chão, juntamente com papéis e pacotes de comida, as ruas estavam vazias. Ainda se sentia um cheiro quente de terra seca, com salpicos de praia. Ao longe, ouvia-se o vento nas árvores e uma ambulância que se sabia a correr em aflição para algum hospital. Caminhava cada vez mais apressadamente. Sentia-se inquieta e vazia. Parecia que sabia para onde ia, mas na realidade não tinha um plano.

Ainda há três dias, estava no seu castelo, no seu mundo de seis metros quadrados, pintado de azul e branco, com umas listas largas, algumas tortas, que ficaram depois de tirar a fita. Mas a harmonia que se vivia entre almofadas, caixinhas, prateleiras de livros e discos, colares pendurados nos espelhos, entre chapéus e echarpes, dava-lhe a sensação de segurança. Os posters cuidadosamente colados a mostrar o ideal de beleza inatingível dos cantores, davam o toque de rebeldia. Ali estava, fechada com os livros e a sua música, nada mais interessava, nada mais havia. Pela casa voava um cheiro a bolos de laranja, sentia-se o calor do forno, era acolhedor e confortante. Ali, naquele pequeno mundo nada podia atingi-la. Colocava a música mais alta, assim acordava as emoções que queria sentir. Era Enola Gay dos OMD. Estava feliz. Sentia-se radiante. Aquele sentimento que perpetuava sempre que se sentia bem.

Numa quarta-feira tudo mudou.

Agora, tinha de andar mais depressa, tinha de resolver o que acha que viu. Nunca tinha visto nada assim. Foi como se quebrassem o seu mundo, como se destapassem o véu do Érebo. Mal sabia o que pensar e o que dizer. Reinava um silêncio calado por todo o lado.

Aconteceu quando saia das aulas com as amigas e desciam, como sempre, a Rua Jardim do Regedor para a estação dos Restauradores, viu o que nunca devia ter visto. Viram o que nunca esperaram ver. Foi como se o que viram fizesse ruir tudo nas suas vidas. Não fazia sentido.
Naquele dia, como outro igual, iam todas estudar para casa da Sílvia. Não era bem estudar, fumavam cigarros às escondidas e falavam de rapazes, coisas proibidas, mas animadamente, como se ao se ouvirem concretizassem as suas paixões. Todas queriam saber quem gostava de quem. Riam parvamente daquilo que achavam que era os defeitos dos rapazes, como se isso lhes desse poder sobre eles. Era as calças que eram foleiras ou as camisolas com bandas de heavy ou o cabelo que era curto ou os ténis… Horrendo. Mas também havia aqueles que tinham camisas de xadrez, com calças de ganga 50, com os ténis e o cabelo certo, que nos faziam suspirar. Mas naquele dia, só Leonor fumou e ninguém falou. Era um silêncio de medo e de perturbação. Ninguém queria falar, ninguém tinha vontade de falar sobre o que aconteceu, sobre o que nos aconteceu. A partir daqui nunca mais iria ser nada igual. Neste dia sem fim, sem palavra ou memória, restou o desfazer dos sonhos. O sentir da entrada violenta de uma realidade esmagadora.
O que poderia ter acontecido? Como poderia ter acontecido uma coisa daquelas? Como? Como é que alguém podia ter invadido a vida sem razão, sem permissão e sobretudo sem aviso. Parecia que o seu mundo ficara de repente sombrio e finito. Nunca tinha pensado na morte. Sabia que morríamos, mas só os velhos, não aqueles que são jovens, atraentes e que radiavam entusiasmo. Causava-lhe agitação saber que alguém que já tinha falado, rido e brincado, estava agora morto. Mas como? O que poderia ter acontecido? Passou o dia todo a pensar nisto a interrogar-se por que razão acontecia e como poderia ter acontecido. O Miguel era tão divertido, sempre falador e cheio de charme. Era o rapaz mais bonito da escola. Quando ele entrava todos olhavam para ele. Ser seu amigo era como ser também bonito e irradiar aquela luz de excitação de ser e estar.

Quando desciam a rua, entre dois carros, lá estava ele irreconhecível. Tinha a cara esmagada e estava sujo, faltava-lhe um sapato e tinha o fecho do casaco meio arrancado. O sangue escorria-lhe pelo cabelo e empapava os caracóis loiros. A pele da cara tinha sangue escuro e seco, numa expressão sem vida e sem existência. Já não parecia bonito, nem parecia ter aquela luz que todos queriam.

Intrigada, surpreendida e amedrontada. Sentiu um formigueiro a invadir-lhe o corpo e sem controlar o medo, caíram-lhe as lágrimas pela cara, em silêncio.

Interrogava-se vezes sem conta como poderia ter acontecido isto com o Miguel. Não com alguém que conhecesse. Isto parecia uma coisa de filmes. Parecia uma situação dos telejornais. Como poderia ter morrido tão violentamente?

Mal conseguia dormir, agitada na cama, sem posição, aquela memória não lhe saia do pensamento. Parece que em tudo o que fazia era atormentada pelo corpo desfalecido, mal tratado e imperturbável. A vida ficou com outro significado. Um significado de fragilidade e de incógnita. Agora já nada sabia, vivia atemorizada com o que poderia acontecer. Mas os dias passavam e parecia que cada vez tudo fazia menos sentido. Foi assim que percebeu que por muito que se esteja ligada às pessoas, nunca se conhece tudo ou o que parece não o é verdadeiramente.

Saia de casa impaciente, era sábado. Quis voltar aquele sítio onde o tinha visto pela última vez. Estava compelida a regressar. Não conseguia pensar noutra coisa. Parece que o medo se sobrepôs à curiosidade de saber a sua maior interrogação.

Quando chegou, ao caminho que fazia quase todos os dias, olhou pela primeira vez com olhos de ver. A rua era suja e vazia. Já não parecia uma rua típica de Lisboa. Parecia uma rua abandonada, sem som, sem gente. Só conseguia ouvir o vento nos cabelos.

Uma fila de carros estacionados, que nem faziam sentido. Onde estava toda a gente? Nunca tinha olhado bem para aquela rua, por onde passou inúmeras vezes, na realidade nunca tinha olhado. Ao olhar de cima da rua, via prédios antigos pequenos velhos e quase abandonados. Uns estavam tapados por estar devolutos. Outros ainda tinham meia vida. Na rua havia um sapateiro, que fazia também chaves, era tão pequena a loja que só cabia um cliente de cada vez e tinha um aspecto sujo e desarrumado, como se fosse impossível encontrar qualquer coisa. Mesmo em frente ao lugar onde viu o Miguel pela última vez, estava um prédio velho com uma porta verde-escuro, quase preta, gasta na tinta nos cantos e com um ar pesado de quem nunca era aberta, cheia de pó seco da estrada, as janelas estavam fechadas. A calçada estava suja, cinzenta e pingava aqui e ali de líquidos peganhentos de um pouco de tudo, uma vez que havia uma tasca mais abaixo e que quando passávamos tínhamos os cheiros de vinho azedo, o chão sempre cheio de papéis e com um ar desmazelado, gasto e desarranjado.

A rua parecia despovoada. Desolada.

Enquanto estava ali a olhar, parada, à espera que alguma coisa exprimisse algo. O vento batia-lhe no rosto e fazia-lhe arrepios do cabelo lhe tocar na face, arrependeu-se de estar ali, queria fugir e afastar-se o mais rapidamente que conseguisse.

Mas estava estática até que alguma coisa lhe tocou no ombro e deu um salto e sentiu os ácidos da adrenalina a bloquearem-lhe os movimento e ao mesmo tempo saiu-lhe um grito seco. Sentiu outro arrepio com tremor a subir-lhe pelo corpo. Olhou e viu o Zé. Descomprimiu. O Zé era um rapaz calado e muito inteligente. Era o melhor da turma. Nunca faltava às aulas ou se juntava a grupos depois das aulas. Era raro falar. Estava sempre a ouvir música com os headphones na cabeça e a rabiscar qualquer coisa. Tinha um cabelo meio despenteado, castanho dourado e comprido a tapar-lhe o rosto. Acho que nunca tinham falado antes. Acho que nunca tinha olhado para ele tão perto.

- Desculpa! Assustei-te? O que é que estás aqui a fazer a um sábado? Perguntou o Zé.

- Nada. Respondeu. E tu?

- Não sei. Não tinha nada para fazer e resolvi passar por aqui. Agora já nunca passo por aqui. Vou pela Rua dos Condes.

- Tens medo? Perguntou-lhe

- Não sei. Acho que não é isso. Tenho a sensação que se não passar por aqui parece que não aconteceu. Eu nem era amigo dele. Respondeu-lhe.

- Mas hoje vieste?

- Bem tenho de ir Constança.

- Espera, vou contigo.

O Zé queria fugir, mas a Constança também. Desceram a rua em silêncio, em passos largos. O Zé andava cada vez mais rápido como se não quisesse ter companhia. Mas como a Constança  só queria desaparecer dali nem se importou. Quando chegou à estação dos comboios sentiu uma espécie de alívio, mas o vazio continuava, com uma sensação de desorientação. Sentou-se num banco e o Zé sentou-se em frente do lado oposto, escorregou pelo banco. Não falaram. Ele pôs os auriculares e a música ouvia-se, estava tão alta. Assim era impossível pensar. A Constança só queria chegar a casa e não pensar em mais nada. Ligar a música e deitar-se com os olhos fechados na esperança que tudo desaparecesse. Quando o combóio chegou a Sintra e olhou para o lado já o Zé tinha saído. Via-o todos os dias no comboio, mas nunca falaram e este foi mais um dia.