terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A minha história começa aqui

Fui-me limitando ao sabor dos acontecimentos, agarrando e explorando as entranhas de alguns episódios e outras de vezes as situações foram-me passando ao lado. Sei pelo menos o que não quero.


Sinto-me por vezes alienada, fechada dentro de um corpo que tem de fazer o que tem de fazer, o que se espera, o que é preciso fazer. Gostava de libertar-me, de soltar-me por ai, de saltar e pular aqui e ali, onde me apetecesse… só para me conhecer, saber quem eu sou. Vivo há tantos anos neste corpo, masacho que ainda não sei quem sou. Tenho medo de viver no pleno do querer.

Os anos foram passando, tinha alguns sonhos, mas todos ficaram a meio. A meio se calhar já é bom, mas não sei.
Quando comecei a sentir-me gente, não sabia o que gostava ou o que queria. No entanto, todos e todas à minha volta gostavam disto e daquilo, cantores, bandas, cinema, roupa, rapazes e raparigas. Eu não queria nada, nada me ocorria que gostasse ou que quisesse. Que coisa estúpida. Achei que se rapidamente não  conseguisse resolver o que gostar, de quem gostar, colocar um rótulo, colocar um formato sobre mim, ia ser um problema. Não queria ficar à margem, à margem também não sei bem de quê, mas sabia que não queria estar de parte, por não gostar disto e daquilo, apesar de saber que quase sempre estava de parte.


Das primas era a mais nova, a mais magra, a com o cabelo mais comprido que me chupava, a mais tímida, a menos faladora, enfim, quase não me encaixava em lado nenhum, não fosse ser loira com uns olhos verdes tristes e marcantes acho que ninguém reparava em mim.

Com excepção da minha mãe. Adoro a minha mãe. Desde pequena que me leva a todo lado, passeava sempre com ela, e quando estávamos em algum lado, ela deitava sempre um olhinho em mim para sentir se não eu estava muito perdida. Protegeu-me em silêncio e eu gostava, admirava-me por ser silenciosa, por nada exigir, nada querer e nada criticar. Não tenho nada haver com o resto da família, é como se fosse uma espécie de uma adoptada que lhe calhou a ela.

À tarde gostava pentear o meu longo cabelo loiro, como se fosse uma espécie de adorno que tem de se tratar para não mudar de cor. Adoro a minha mãe. Todos os fins-de-semana fazia um bolo ou uma torta, todos os fins-de-semana era uma espécie de festa. Mas às vezes ficava triste… lá tinha eu de ir para casa das minhas primas, com a minha irmã e todas gostam disto e daquilo, deste e daquele e eu não tenho nada para dizer. Que inferno. Não sei de que cantores gosto, a roupa pouco me importa, não tenho ídolos, não colecciono brincos, nem sei músicas de cor, não tenho calças à boca-de-sino, nem calças de ganga.

Mas se pensar bem, gosto de me deitar ao sol a ler o livro dos Cinco, ou a recortar revistas com letras diferentes. Gosto comer fruta das árvores e andar descalça. Gosto de fazer festas em cães e gatos que andam na rua e de ir a Espanha comprar caramelos e chocolates. Gosto quando a minha mãe me penteia e me leva a passear. Gosto de sentir o vento quente de Setembro, vestida com as minhas jardineiras e umas tranças para o cabelo não me tapar a cara. Gosto de andar de bicicleta de ir à praia e deitar-me em cima da areia quente e tomar banho no mar às horas que quase ninguém está na praia.

Acho que a melhor sensação do mundo é sentir e ouvir o vento quente, que nos acaricia o corpo, nos repousa como se o tempo parasse e só nós importássemos. Gosto destas coisas, apesar de não ter cantores favoritos, gostar de actores bonitos que fazem as delícias das adolescentes, não usar as calças à boca-de-sino.  Se calhar sou muito nova, ainda uma criança sem me poder identificar com nada, só com a minha mãe. Adoro a minha mãe.

Detesto a cidade, grande e barulhenta onde ainda fico mais incógnita do que já sou, não há vento nem areal, não há cães e gatos a passear sozinhos, não há fruta nas árvores e não posso andar de bicicleta.

A minha história começa aqui.