sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Stop all the clocks


Não quero ser velha. Como é que ficamos aprisionados num corpo que vai envelhecendo? Ficamos, sem dúvida alguma, colados numa certa idade mental que não é a mesma que a física. Não me custam os anos, ou o número a aumentar. Aflige-me, sobretudo, a espécie do murchar a que assistimos de nós próprios.
Ainda não vivi tudo. Ainda não fiz tudo o que queria e a cada segundo vejo o tempo passar. Sem retorno e piedade.
Quando estamos com pessoas mais novas. O estatuto da idade pesa. Pesa, mas ao contrário. São os mais novos que nos emprateleiram e nos acomodam no espectro da distância geracional. Mas a questão é: não estamos tão longe deles de pensamento. Sabemos exactamente os erros que vão cometer. Onde vão falhar e o que vão fazer às escondidas. Não estamos tão longe deles como tivemos dos nossos pais. Não só no que diz respeito à informação. Mas sobretudo à maneira de encarar o mundo. Estamos próximos porque a fossa dos acontecimentos é imediata e colada à da geração anterior-
Não quero ser velha. Essa é a contenda. Quero viver para sempre. Quero saber tudo. Quero aprender tudo. Quero conhecer tudo. E sobretudo, quero aprender com os meus erros e voltar a ter mais uma, mais mil oportunidades para tudo. Não porque erro tanto, mas porque vivo devagarinho e o tempo para mim não passa ao mesmo tempo dos outros todos. Não é justo. Deveria haver uma equação matemática que calculasse a velocidade a que cada um vive e ajustasse a unidade de medida tempo.
Não quero ser velha. Não  quero ver a pele a murchar e a secar. A máquina óssea a empenar. O cérebro a adormecer a aperceber-se, como se a sua impotência assistisse,
Quero ter outra vez 20 anos. Quero outra vez fazer aquelas tertúlias de discussões filosóficas, absolutamente vazias de conteúdo, que demoravam horas e geravam as discussões mais arrebatadoras e extremistas que alguma vez tive na vida. Como se a opinião tivesse de ser defendida como um erário e a demostração de identidade própria de cada um. O que era sem tirar nem pôr.
Quero outra vez viajar pela europa com muito pouco dinheiro, conhecer tudo e todos, saber ver e conhecer. Quero não saber o que vou fazer a seguir. Quero outra vez ver cinque terre como se o mundo ali começasse. Quero outra vez sentir o frio de Frankfurt com vinho quente em copo de plástico. Quero outra vez sentir a areia na pele com sol a marcar mais de 30 graus nas costas e não me importar. Quero entrar dentro do mar sem pensar no frio. Quero beber vinho tinto com seven-up. Quero outra vez esperar pelos meus amigos na estação dos combóios sem telemóvel e esperar com todo o tempo do  mundo. Quero outra vez aterrar em NY com 17 anos e sentir a liberdade. Quero outra vez regressar a Lisboa e chorar quando vejo a ponte sobre Lisboa e o Cristo Rei. Quero dançar ao som de Commundards. Quero sentir nas mãos um disco novo e tocá-lo vezes sem conta. Quero jogar à canasta e ao king, com amendoins e coca-cola. Poderia fazer uma lista infinita. Mas ocorre-me que tudo isto foi o caminho para o mais importante da minha vida. A minha edificação na terra. O meu oxigénio. O meu sentido e o meu norte. A Francisca.
No dia em que nasceu. O mundo fez sentido. E lembra-me o poema de W. H. Auden, quando ele diz “stop all the clocks”. Foi isso me aconteceu. De repente nada mais importava. Só ela. Era tão pequenina. Tão frágil. Tão macia. Tão meiguinha.
Nada na vida  consegue ser superior à experiência de ter tido a minha filha nos braços. Desde ai não mais a larguei, não mais fiz planos e não planos, com e sem ela.
A razão de ser melhor pessoa é porque ela existe.
Não quero ser velha. Mas se o preço é este estou disposta a aceitar.