Todos aceitamos o amor que achamos que merecemos.
Quando percorremos um caminho de busca de algo mais, não será apenas a nossa insatisfação permanente que nos trai de conseguir viver o momento, o evento sem pudor.
Este é um blog de ideias, pensamentos, experiências, opinião, histórias verdadeiras e ficcionadas. Aqui pode aparecer de tudo. É uma editora online sem censura, despretensiosa e simples. O "livro" que faltava escrever para marcar a passagem pela Terra.
domingo, 20 de março de 2022
terça-feira, 25 de julho de 2017
Não gosto do morno. Não gosto do poucochinho. Não gosto do assim assim. Não gosto daquilo que os outros chamam normal. Gosto de tudo. Quero tudo. Quero muito. Emoções. Acções. Sentimentos. Elevações.
Gosto quando sinto a vida. A vida toda por completo.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
Não podia estar mais de acordo com António Lobo Antunes "A melhor maneira de lidar com os outros é tomá-los por aquilo que eles acham que são e deixá-los em paz". Existe nos dias de hoje, os únicos que conheço e que alguma vez conhecerei por contacto directo com tantas pessoas, muitas e muitas e muitas pessoas que se dizem, que se acham, que querem sempre transmitir aos outros a imagem, a ideia, o conhecimento, os valores que gostariam que os outros acreditassem quando das duas uma eles próprios precisam de acreditar ou querem que os outros acreditem: Quando na página da vida deles, cheia de contas, frases, fotografias conversas, promessas que querem projectar não passam de vazios e ar de nada e pior exactamente o contrário do que querem projectar. Projectando a maior parte das vezes imagens falsas do que realmente são, ideias certas mas sem sentido de vida para os próprios e pior para os outros que envolvem na sua vida.
Não é para mim nenhuma surpresa tudo isto, ao longo dos anos cruzei-me com algumas pessoas boas e honestas. Pessoas cuja vida não têm medo de viver sendo o que são e o que pensam e não têm medo de fazer. Essas são poucas. Essas são aquelas que queremos sempre perto de nós. Mas existem tantas e tantas outras cheias de nada, cheias engano, com tanta desonestidade que começaram alguns a acreditar neles próprios. Essas eu não quero, mas por alguma razão ou por outra, principalmente por achar que as pessoas podem ser como eu, vêm ter comigo, eu acredito e acredito e deixo e depois, porque nada na vida se mantém escondido ou encoberto, lá vem a verdade. Aquela que gosto, mas que faz sofrer e magoar, porque a descoberta que mais uma vez fui enganada é demasiado difícil.
Mas hoje e a partir de hoje decidi que tratarei os desonestos intelectuais, os traidores, os desleais, os mentirosos como eles merecem. Acreditando e deixando-os em paz. Só assim posso estar em paz comigo. Só assim poderei prosseguir. Só assim conseguirei sobreviver.
Não é para mim nenhuma surpresa tudo isto, ao longo dos anos cruzei-me com algumas pessoas boas e honestas. Pessoas cuja vida não têm medo de viver sendo o que são e o que pensam e não têm medo de fazer. Essas são poucas. Essas são aquelas que queremos sempre perto de nós. Mas existem tantas e tantas outras cheias de nada, cheias engano, com tanta desonestidade que começaram alguns a acreditar neles próprios. Essas eu não quero, mas por alguma razão ou por outra, principalmente por achar que as pessoas podem ser como eu, vêm ter comigo, eu acredito e acredito e deixo e depois, porque nada na vida se mantém escondido ou encoberto, lá vem a verdade. Aquela que gosto, mas que faz sofrer e magoar, porque a descoberta que mais uma vez fui enganada é demasiado difícil.
Mas hoje e a partir de hoje decidi que tratarei os desonestos intelectuais, os traidores, os desleais, os mentirosos como eles merecem. Acreditando e deixando-os em paz. Só assim posso estar em paz comigo. Só assim poderei prosseguir. Só assim conseguirei sobreviver.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Escrever
Tenho ganas de escrever. Escrever e não parar. Escrever o que sinto, escrever o que vejo e até disto e daquilo de mim e dos outros. Escrever qualquer coisa e qualquer coisa escrever. Quero pôr em palavras escritas todos os pequenos sentimentos, as grandes memórias, as mais ou menos experiências e até coisas e coisinhas. Quero comecar a dedilhar no teclado sem parar para pensar. Pensar que posso sublimar tudo só com as palavras que me saem dos dedos. Às vezes escuto o silêncio da minha cabeça e o vazio das palavras que podem ser escritas mas que ficam por dizer só deixam o mais por escrever. Mas quando a cabeça não pára, os dedos não param sai um pequeno texto por vezes cheio por vezes vazio.
Não há nada mais que me preencha tanto como escrever. Escrever agora que a doce leitura vai rareando por não conseguir ler as letras pequenas. Temos tanto para contar. Temos tanto para dizer. Temos tanto para saber.
Aqui numa folha branca vamos colocando em preto uma ideias e uns sentires tolos de quem quer passar o tempo a comunicar com o mundo que não vê e não sabe quem escreve e o que escreve.
Escrever para nós e só para nós.
Não há nada mais que me preencha tanto como escrever. Escrever agora que a doce leitura vai rareando por não conseguir ler as letras pequenas. Temos tanto para contar. Temos tanto para dizer. Temos tanto para saber.
Aqui numa folha branca vamos colocando em preto uma ideias e uns sentires tolos de quem quer passar o tempo a comunicar com o mundo que não vê e não sabe quem escreve e o que escreve.
Escrever para nós e só para nós.
Lisboa
A luz fugidia do final de tarde, o crepúsculo vem mais cedo, o verão acabou, e com um silêncio quebrado por alguns carros, invade a cidade que parece sozinha. A luz fraquinha deixa uma perturbação e uma vaga emoção de tristeza.
Os prédios com cores esbatidas, alinhados e desalinhados, as pessoas que passam apressadas, sem expressão, automatizadas e com destino certo deixam transparecer o sentimento de solidão da cidade.
As árvores que vão deixando cair as suas folhas que se juntam no chão com papéis e beatas trazem ao pensamento o abandono. Ao longo dos anos nunca percebi o porquê desta tristeza, deste vazio nas ruas da cidade. Cheia de tudo e em nada.
Lisboa tem em si o turbilhão de todos os sentimentos e como uma pessoa às vezes alegre e maravilhosa, às vezes triste e sozinha. Nem sempre queremos saber da nossa cidade, que está viva. A vida suga-nos sem que possamos olha, escutar e sentir. Os encargos do dia a dia não nos deixam ver, escutar e sentir.
Da minha janela vejo a ponte e o cristo-rei, às vezes cheia de luz e cheia de cor, às vezes emerge por dentro de uma bruma densa de nevoeiro. Está a chegar o inverno e com ele uma palete de cor mais parda e murcha.
Lisboa... Viva e sempre cheia de emoções está aqui.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Chove
Chove torrencialmente. Está tudo pingão e
cinzento. Do meu gabinete vejo o Cristo-Rei metido dentro das nuvens cinzentas.
Os tons de cinzento escuro estão por todo o lado e a paisagem esconde-se atrás
de um nevoeiro que não deixa ver as cores e o desenho dos prédios coloridos de
Lisboa. O recorte pequeno do rio Tejo que vejo da minha janela está tão escuro
que parece um poço. Este
cinzento confunde-se com o meu estado de alma. Entranha-se. Nestes dias que te
retalham a alma com traz-me à memória os dias intermináveis da semana chuvosa
quando era pequena. Não gosto de pisar as poças de água, molho os sapatos,
tenho frio. O frio não te deixa viver, às vezes ver, às vezes sentir
aquela brisa de vida que o sol traz. Preciso de ver as cores todos os dias.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Mais um dia...
Entro de cabeça erguida. Mais um dia com tanta gente há
minha volta, mas com a sensação de solidão. A sensação que nada do que dizem é
verdadeiro ou tem interesse. Oiço falarem mas não estou a processar. Tenho a
cabeça noutro sítio. Sei que estou a responder por intuição da linguagem
verbal. Correspondo mas sem pensar ao que dizem. Tenho um desinteresse quase de
desprezo por o que falam, todos em grande preocupação, pela preocupação
inexacta e por um amparo vazio. A curiosidade de todos é uma curiosidade necrófoba.
É aquela curiosidade de ver a tragédia e
sentir que as vidas deles são melhores ou estão melhores. É a eterna miséria
poucochinha do português. Os coitados têm sempre a solidariedade, oca, pois
claro, pouco real, de quem se quer sentir melhor com a merda de vida que têm.
Tenho sempre esta sensação que as palavras que me dizem não
são verdadeiras, são clichés sociais que precisam de ser ditos naquele momento.
Mas entro e sorrio e agradeço e prometo tratar da minha saúde. E entro com uma
sensação agridoce que me faz sentir arrepios. Não sei o que pensam
verdadeiramente, mas na realidade nunca me interessou o que pensam. Se parar,
escuto os pensamentos de toda a gente. Escuto a censura e o sentir de vitória.
Se escutar com atenção sei o que pensam. Na realidade não me interessa o que
pensam, nem tão pouco o que sentem.
Hoje é um dia diferente. O dia que tinha medo que
acontecesse. Aconteceu há uns dias. O dia do cair, do sucumbir e do morrer um
bocadinho. Há muito que tinha medo deste dia. Agora que aconteceu, tenho medo
que marque um marco na minha vida. Tenho medo de não conseguir fingir um pouco
mais ou de já não conseguir fingir.
Preciso de juntar os cacos, colar de alguma forma e
prosseguir. Vou arranjar uma maneira. Penso isto enquanto ainda escuto algumas
pessoas aqui dentro. Vou dizendo que sim e pensando na estratégia de
prosseguir.
Até um dia. Se chegar.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Alheio a tudo. Ali estava ele. Dormia tranquilamente. Só de olhar trazia-me paz. Uma paz que não encontro. Uma paz que preciso e não vem. É um turbilhão de pensamentos. Ocorre-me sempre o fim e um caminho que não acaba, sem fim e escuro. Não tenho medo, mas estou cansada. Apetece-me deitar-me ao lado dele para que a paz dele me chegue também. Para que ele me dê aquela tranquilidade e quietude de quem não tem com que se preocupar ou sentir em sobressalto. Ocorre-me fugir. Ocorre-me tentar voltar atrás e tentar repetir tudo de novo. Como quem tenta repetir um teste à procura de uma nota mais satisfatória. Ocorre-me deixar-me ir.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
A vida
Com o passar dos anos, de repente, temos mais de quarenta. Quando olhamos para trás, não foi só depressa que passou. Já nem nos lembramos como se passou cada ano com clareza. Já não nos lembramos se sugamos a vida ao máximo ou se foi a vida que nos sugou a nós, em cada ano que passou. Não foi só num ápice que passaram as últimas décadas sem darmos o real valor da vida, ao mais precioso bem da nossa vida. A nossa vida.
Quanto vale a nossa vida? Para nós e para os outros?
Quanto estamos dispostos em investir nesta vida para sermos melhores, para conseguirmos ser mais felizes, para nos sentirmos bem com a vida que temos?
Quanto mais felizes somos, mais valor há na nossa vida?
Quanto mais temos ainda por fazer e experimentar, mais valor há na nossa vida?
Estamos vivos e tudo vivemos? Talvez sim! Mas falta-nos o peso da alegria das experiências que achamos quer perdemos, que poderíamos ter feito diferente e até que decidimos que não tinham interesse. Com o passar dos anos parece que não me lembro de tudo. Tenho medo de me esquecer.
Foi o pouco tempo que temos, as preocupações com os filhos, a carreira que paga as contas, o cansaço físico depois de uma semana de trabalho, aquele episódio que nos deixou triste, aquela pessoa que nos lixou, as responsabilidades, as filas no transito, sei lá...
E depois fica pouco tempo para sorrirmos e para estarmos vivos, vivos de vida. Daquela vida que nos envolve e nos aperta. Daquela vida que nos faz sentir vivos, daquela que nos dá as emoções, os sentimentos e nos faz estremecer. Daquela que nos faz pôr o sorriso nos lábios e sentirmos-nos mais vivos.
Entretanto, já passaram mais de quarenta anos... O corpo que vai envelhecendo a passos largos, não larga um cérebro mais novo. E damos por nós a olhar para os miúdos com um olhar de miúdos, mas sem ser miúdos e pior sem ser percebidos que um dia fomos miúdos.
Não tenho tristeza do que não vivi ainda, tenho tristeza daquela juventude que foi tão rápida e que me aprisionou de certa forma e que agora me cobra mais.
Hoje tenho a certeza que quero aquela vida que saboreia o mundo, aquela que, apesar das filas de trânsito e das contas para pagar, nos dá aquele sorriso sem esforço e sobretudo sem pedir.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
À beira de um precipício vai a vida quando se quer intensa.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Sexta-feira 13
Sexta-feira dia 13. Dia do azar. Dia onde as forças negras podem convergir para teres uma grande infelicidade.
Parece-me a mim que o dia não precisa de ter essa data para o infortúnio te bater à porta. Todas as decisões que tomamos convergem para acontecimentos, sem falar nas questões de saúde, pelo menos totalmente.
O azar é geralmente aquilo para o qual contribuímos, mas queremos em pensamento contrafactual arranjar argumentos de explicação e justificação, que apenas contribuem para nada se aprender ou mesmo evoluir.
Na realidade contribuímos para tudo. Salvo honrosas excepções que seres humanos excepcionais nos podem oferecer a partir da sua boa formação moral e ética.
Parece-me a mim que o dia não precisa de ter essa data para o infortúnio te bater à porta. Todas as decisões que tomamos convergem para acontecimentos, sem falar nas questões de saúde, pelo menos totalmente.
O azar é geralmente aquilo para o qual contribuímos, mas queremos em pensamento contrafactual arranjar argumentos de explicação e justificação, que apenas contribuem para nada se aprender ou mesmo evoluir.
Na realidade contribuímos para tudo. Salvo honrosas excepções que seres humanos excepcionais nos podem oferecer a partir da sua boa formação moral e ética.
Desonestidade Intelectual
Não há nada mais deprimente do
que o ser humano que joga com as palavras. Joga consoante o seu interesse,
consoante o momento e até num jogo de palavras manipula o seu interlocutor. Na
desonestidade intelectual existem dois tipos de pessoas que a fazem, os que têm
a perfeita consciência do jogo de manipulação e os que não têm a consciência,
ou seja os burros. Parece-me a mim que a burrice também não passa da manha das
palavras para quando dá jeito. Ora se conseguem ser desonestos
intelectualmente, consciente ou inconscientemente remetem-se para níveis de
manipulação, próprios de pessoas que não na vida para relativizarem tudo ou para com frontalidade encararem os momentos como eles deverão ser. Factuais. Não se pode ganhar sempre, não se pode estar sempre por cima, não se pode capitalizar sempre, não se pode usar sempre os outros.
A desonestidade intelectual é das
coisas que mais me aflige nas pessoas. É uma espécie do que dá mais jeito, uma
espécie de "deixa-me lá perceber se me posso safar", é uma espécie de
"deixa-me somar". Torna o raciocínio distorcido, as discussões
vazias e sobretudo a oportunidade de aprender mais viva e presente. Aprende-se,
naturalmente, a estar na vida com um instinto de sobrevivência assustador. Mas parece que todos aceitamos isto, com alguma passividade.
O ser humano desonesto
intelectualmente encerra em si a contradição sempre latente. Existe neste tipo
de índole uma relativização de tudo para o nível do interesse, sempre próprio.
Não deixa de ser interessante o
momento, em que com honestidade, quer arrecadar a honestidade, momento raro,
mas que existe e sempre com grande admiração se constata.
Carece, ainda neste espaço de
abstracção sobre esta questão, tentar definir a questão da desonestidade intelectual.
Uma pessoa é intelectualmente
honesta quando, sabendo a verdade, afirma a verdade, reflecte sobre a verdade,
infere sobre a verdade, cujo único elemento são os factos que a compõem.
Dou alguns exemplos da
desonestidade intelectual. Factos e informações relevantes podem ser
propositadamente omissos quando as situações contradizem a própria hipótese, ou
factos podem ser apresentados de forma parcial ou retorcidos com conclusões enganosas,
de modo a dar a entender outro caminho que não aquele que faz direito à verdade
colocada. De um modo geral, qualquer um destes comportamentos cairia sempre
sobre a desonestidade intelectual.
Também existe outro tipo de derivações
da desonestidade intelectual. Aquele que ignora deliberadamente factos, argumentos
ou informações que possam prejudicar a sua posição. Aqui estamos perante a subcategoria
de ignorância intencional. Mas quem é que ignora intencionalmente? O desonesto
intelectual.
As formas mais comuns de
desonestidade intelectual incluem o plágio, a aplicação de padrões duplos,
usando falsas analogias, exagero e generalização, apresentando argumentos palha
e envenenando o bem que advir dos factos ou acontecimentos.
Como digo, não há nada pior que
este tipo de estirpe, acima disto só o mentiroso ou o mitómano. Outro argumento
para escrever neste blog.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Os animais e as pessoas
A visão que muitas vezes estás sozinha com o teu pensamento, com a tua abordagem ao mundo, com a tua maneira de ver o mundo, o que acontece muitas vezes, coloca-me numa situação de não carneirismo. Dá-me a perfeita noção que em muitas circunstâncias penso de maneira diferente. Recuso-me a ser mais uma entre muitos e que faz igual, porque é assim que todos esperam e é assim que se faz e é assim que se deve fazer.
Parece que existe um protocolo de ver, fazer e falar com um enquadramento e complacência em determinadas situações que só assim podem ser aceites por todos, caso contrário és maluca, ridícula, deselegante ou mesmo tens a mania que és melhor que os outros. Não que não haja o protocolo de vivermos em sociedade. Respeito os termos de convivência em sociedade, do civismo e do espaço do outro. Diria que até respeito demais. O que não consigo é não deixar de respeitar o meu espaço e a minha visão, quando me pedem essa anulação.
Parece que existe um protocolo de ver, fazer e falar com um enquadramento e complacência em determinadas situações que só assim podem ser aceites por todos, caso contrário és maluca, ridícula, deselegante ou mesmo tens a mania que és melhor que os outros. Não que não haja o protocolo de vivermos em sociedade. Respeito os termos de convivência em sociedade, do civismo e do espaço do outro. Diria que até respeito demais. O que não consigo é não deixar de respeitar o meu espaço e a minha visão, quando me pedem essa anulação.
Há muito tempo, muitos anos que sei que o que me define como ser humano, não é o que faço ou o que sou, mas aquilo que quero dar aos outros e aquilo que espero da vida. Das pessoas já espero muito pouco e poucas ou nenhumas expectativas tenho. Ainda aqui e ali vou achando que posso ter alguma expectativa, mas é tão baixa que a desilusão é muito pequena.
Recentemente, o meu querido cão morreu. Desde os três meses de idade que estava connosco, estava em nossa casa. Era um companheiro que víamos como parte da família. Apesar do seu grande porte e de ter espaço no jardim, para correr e estar em liberdade, queria sempre dormir em casa e estar dentro de casa, comer o que comíamos e estar ao pé de nós. No seu instinto animal procurava a sua liberdade e lá ia fingindo quando o portão estava aberto para um passeio de liberdade só dele. Dava uma volta ao quarteirão e voltava, feliz de ter autónomo no seu passeio. Corria muito e gostava que olhassem para ele a correr, eu principalmente. Era forte e leal. Peludo e feroz. Doce e meigo, Foi com grande desgosto que o vi partir. Nunca soube o que ele pensou, nem o que achava. Mas sentia que era da minha família. Nas ultimas duas semanas vi-o sofrer, definhar sem conseguir andar que ele tanto gostava. Sofreu tanto que só de pensar que nunca soube se fiz o suficiente me martiriza. Ensinou-me que mesmo já sem conseguir andar queria viver e continuava a querer levantar-se para passear passear e se esforçava até à ultima. Quase paralitico, doia-me perceber que se queria levantar e não conseguia. Como alguém disse: estes cães são estoicos. Ele era e foi até às ultimas horas estoico, na ultima hora depois de o pormos em pé, cambaleou e deu o seu ultimo passeio, em grande sofrimento, tenho a certeza. Irei para sempre guardá-lo na minha memoria como o meu cão, o meu Fluffy, aquele que todos os dias esperava ao cimo da rampa por mim, a abanar a cauda peluda, e logo que eu abria a porta se deitava ao pé de nós, esticado no chão a ocupar a sala e a passagem. Nunca pensei que me pudesse fazer sentir tão triste a sua partida, o seu sofrimento e sobretudo a sua ausência. O Fluffly quando lhe pediam a pata ele dava a pata, nos ultimos dias quando o pediamos ele punha a pata para trás, como dizendo, já não te posso dar a para. As suas orelhas peludas e fofinhas deste Serra da Estrela, era como um indutor de relaxamento, para quem lhe fazia festas. Faz-me falta. Dou comigo a ter os mesmos comportamentos como se ele ainda ali estivesse. Fazes-me falta.
O que espero da vida, espero-o há muito tempo. Não no sentido de projecto de vida, pois esse foi totalmente preenchido pelo nascimento da minha querida filha. Mas o que espero do amor ou o que o amor me dê. São pequenos gestos, pequenos demonstrações de "tu és importante", "tu contas" e "eu estarei sempre ao teu lado". Já abdiquei de muita coisa na vida. Já perdoei muitas vezes. Já ultrapassei muitos desaforos a pessoas que são mal formadas e que estão na vida como um acção está na bolsa, Tudo tem um valor, e até podemos trocar, mas a seu tempo, quando sobre ou desce. Mas a vida também já me ensinou que não chega perdoar. As pessoas vão repetir as mesmas acções ou palavras.
Não há nada pior na vida que um ser humano que na sua condição de imortal acha que pode dizer tudo o que lhe vai alma e depois a seguir pedir desculpa. Nada retira aquelas acções ou aquelas palavras. A partir daí só o gesto de querer fazer um pouco melhor pode contar.
Já fui amada por muitos. Muitas paixões assolapadas passaram por mim, dessas paixões existiu sempre o amargo que se não forem compensados na devida visão própria, tornam-se vingativos e dão um retorno de nada mais tenho para dar.
Amor não é dar. Amor é cuidar. Amor para mim é a troca de um momento que é naquele momento que é preciso. Nada passa duas vezes, nada acontece duas vezes. Amor para mim é quando mesmo quando tudo corre mal, está lá alguém que abraça, cuida e sem moeda de troca em silêncio da sentir o seu amor.
Sou parca na manifestação do amor. É um estilo. Não sou de grandes manifestações de carinho. Não tenho grandes planos de surpreender ou de planear coisas românticas. Mas estarei sempre lá quando é preciso. E mesmo quando não é preciso.
Preciso de pouco e pouco ou nada peço. Como alguém me disse não tenho esse direito. Fi-lo há pouco tempo. Pedi. Pedi apenas porque precisava de um abraço, de um espaço, de um tempo, para me refortalecer. Não veio, não havia. O que pedia era um grande sacrifício ao qual não tinha direito de pedir. Bem verdade! Não tenho o direito de pedir nada a ninguém.
E assim vai o amor dos humanos, sempre cheio de contra partidas, muitas palavras azedas de revolta, muita vingança e muito pouca vontade de fazer algum tipo de concessão sem nada em troca.
Tenho saudades de ti FLUFFY nunca me pediste nada em troca. Como a Brigitte Bardot dizia: Quanto mais conheço os humanos mais gosto dos animais. O que me parecia na altura uma loucura, hoje, revejo-me, compreendo e sinto que é no amor incondicional que estará a verdadeira essência do amor. O amor que só os animais nos podem dar.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Primeiro estranha-se e depois entranha-se
De regresso a
Angola. Passou um ano e três meses, desde a última vez.
Ao fechar
as malas existe aquela sensação de missão. Não é uma viagem cultural. Não é uma
viagem de lazer. Nem sequer uma viagem de trabalho qualquer. É uma viagem em que temos de começar um projecto de raiz num pais que não conhecemos e com uma cultura em muitos aspectos completamente diferente da nossa, isto num país que, viveu, ainda há doze anos mergulhado numa guerra civil de
trinta e oito anos.
É o povo. O
povo, a matéria mais indiferenciada, que sofreu. Sofreu, não só na fome,
mas na habitação, na educação e desenvolvimento cognitivo, na saúde e principalmente na família. Sofreu, sobretudo
porque lhe retiraram o pensamento. A capacidade de pensar e reflectir para além
das necessidades básicas. A capacidade de pensar com liberdade intelectual. Aprendeu-se a não pensar. Existe um instinto de sobrevivência marcado e perceptível em todos. A
capacidade de construir uma identidade una em cada um é raramente identificada. São todos uma grande
massa. São indiferenciados. São repetidos. A identidade construída é igual para
todos. Humildade. Necessidade de agradar. O sim a tudo, mesmo que não sintam ou não queiram e sobretudo que saibam que nem o vão fazer. O "sem pensar" esconde o
medo de trinta e oito anos de guerrilha. Dizem que os mais velhos, não
acreditam que a guerra acabou. Pois passados doze anos está tudo pior. Não sei como era, mas percebo o pior.
Não é uma
viagem qualquer.
Com ansiedade
de ver, observar e compreender o que está por detrás de cada comportamento,
motivo-me a ir. Sobretudo o desafio de fazer com sucesso o projecto e retornar sem nenhum dano.
Quando saímos do
aeroporto o cheiro é inconfundível. Cheira a África. Um dia
disseram-me isto e eu fiquei a pensar: que estupidez! Como se houvesse um
cheiro de África. Mas existe! E entranha-se. Existe algo por detrás deste cheiro,
uma liberdade inenarrável.
Fazemos mais
duzentos e cinquenta quilómetros até à província de Kwanza Norte, N'Dalatando, (antiga Cidade de Salazar), mais propriamente. Numa
estrada de apenas uma faixa de alcatrão, sem bermas, circunscrita pelo capim verde e
feita por construções chinesas que abre crateras nos dois sentidos, desconfiamos. - É preciso cuidado, muito cuidado. É o nosso
motorista que o diz, conformado. Depois de uns vinte quilómetros a rede de
telemóvel perde-se e perde-se. Passam-se mais de cem quilómetros sem rede. Olho
constantemente para o telemóvel para ver quando temos rede. Penso que se
existir alguma fatalidade, será isso mesmo uma fatalidade. Sem o socorro do 112
ou bombeiros. Não se sabe o que pode acontecer, quem nos socorre. Os camiões
passam descontrolados, há ultrapassagens loucas e vai-se vendo carros
acidentados aqui e ali.
A contrastar
com este pensamento de fatalidade, começamos a avistar a paisagem do norte de Angola. As
montanhas e os montes carregados de floresta verde e densa, quase indivisível. Os Embondeiros esguios irrompem entre a vegetação subindo ao céu, com os Múkua
pendurados como se de um adorno se tratasse. É extasiante de magnifico. É mais do
que magnifico, é África ainda pura. Não há musseque, nem vendas loucas, não há
transito nem o cheiro a gasóleo. Ao longo da estrada vamos vendo povoamentos em
cubatas de barro, telhados de zinco seguros por tijolos ou telhados de capim
seco. Não são mais que vinte ou trinta cubatas em cada povoado. Com pequenas
vendas que cada um faz, carpo da lavoura. São dez ou quinze peças de cada
legume. Entre a exposição escassa e sem abundância. São tomates. São batatas. São gindungos. Não há muita variedade.
Escasseia tudo. É peixe quase podre de tantas moscas pousadas e do calor
insuportável. São dois ou três macacos pendurados. As caras
apáticas, por detrás dos alguidares coloridos da venda, não fazem por vender, esperam só.
- É uma carne
boa, seca. Diz o nosso motorista, quando expresso a minha surpresa de se comer macacos. Mas é um
animal selvagem? Tudo se vende, sem rótulos, prazos de validade, sem embalagem
e sem tabelas. É o mercado livre que sustenta todos, num país sem trabalho e que fora de Luanda quase sem esperança, sem alento, mas que ninguém se queixa ou chora
ou lamenta.
O povo está
conformado. Sobrevive.
Estamos quase a chegar perto da capital da província, N'Dalatando. Sinto-me mal disposta, mas feliz pela paisagem deslumbrante que vou usufruindo até chegar ao destino.
Vislumbro uma
extensão de musseque na paisagem. Barrento e zincado. A cidade é feita praticamente de musseque. A primeira imagem que me vem à memória é Serra Leoa. Parece um campo de refugiados. Ao entrar na cidade lá se veem as construções
coloniais e do Estado Novo. Sinto a clivagem total entre os portugueses e os angolanos. Ainda
ali, não são só vestígios, são as únicas construções de estrutura de cimento, organizada, coloridas que existem. O resto é uma massa de barro disforme com telhados de
zinco. Estivemos ali e construímos bem. Vê-se um edifício apalaçado, com cópula
e colunas de mármore na entrada, agora é a sede de um banco, tudo meio destruído e sem qualquer manutenção. Estão praticamente ao abandono. Vê-se outro
imponente, em amarelo, é o governo da cidade. Outro o hospital. Tudo o que é
decente, do ponto de vista arquitectónico é colonial. Ainda não chegou o progresso da aclamada paz à cidade de
N'Dalatando.
Estamos instalados num "hotel", cujos
quartos parecem quartos de apartamento de aluguer, todos diferentes,
sem os padrões hoteleiros, sem chave magnética, por entre corredores labirínticos carrego uma chave com um pedaço enorme de madeira e subo, pelas escadas, até um segundo andar uma mala de vinte quilos. Construídos com materiais diferentes de quarto para quarto, sem um projecto por detrás, assim se sente. Quando abro o quarto que me foi designado, o sentimento de desalento assola-me. O cheiro bafiento que sai da porta é nauseabundo, a penumbra que as cortinas pesadas de pano verde com umas flores castanhas fazem sentir. Acendo a luz, abro as cortinas. Não sei por onde começar. Desfaço a cama até aos pés e claro, indescritível. Munida de uns lençóis e uma almofada começo o makeover do quarto que me foi destinado nas próximas semanas. Vou à casa de banho e constato que não há possibilidades de makeover. O banho tem de ser de havaianas e a porta tem de estar sempre fechada. O cheiro é tal que para dormir tenho de pôr perfume nos cantos do nariz para disfarçar. Após alguns dias já me tinha habituado... ao ritual do perfume e a tudo menos bom.
Esta narração menos boa, abre uma infinidade de oportunidades, porque tudo o que vier melhor é bem-vindo e pouco expectante, funciona como uma dádiva.
Assim foi, num dia que pudemos descemos a Kilombo, situado na reserva da florestal tropical da província, vemos o melhor que Angola nos pode oferecer. Percebemos agora porque se chama cidade jardim. Esta floresta densa e imponente encerra em si plantas, flores e árvores que nunca vi. Uma vastidão que apenas de jipe é possível percorrer, diz que tem todos os animais selvagens. Mas nunca vimos. Diz-me que pelos anos prolongados de guerra os animais fugiram e serviram de alimento.
Uma das belezas: a rosa de porcelana. Uma espécie de flor com uma composição dura e emborrachada, magnifica de cor-de-rosa pálido. Vendem-se ao chegar. São as Mafumeiras e os bambús gigantes, uma selva, com os riachos a contornar a e a passar no meio da floresta tropical, que nos transportam, ouvem-se os gritos dos pássaros. Escura e húmida, as árvores multiplicam-se, na floresta.
Por fim a quedas Kalandula. É preciso ir e ver. O som da água a cair faz-nos falar mais alto, sem darmos quase por isso. Sente-se a frescura dos salpicos, na cara, da água que cai pela encosta. Sente-se a natureza como não se sente no nosso dia-a-dia. Com força, vibrante e faz-nos pequeninos.
O melhor.
Mas o que quero memorizar nesta viagem é outra coisa.
É domingo de
Páscoa! O motorista que sabe que sou católica convida-me para ir à Missa. Aqui, posso dizer que tive a honra
de participar na missa católica da congregação de N'Dalatando. A igreja cheia.
Domingo de Páscoa. Os meninos e meninas vão ser baptizados. O sacramento do
baptismo é feito depois de três anos de catequese. Vestidos com a sua melhor
roupa de cerimónia. Eles com os fatos pretos esgarçados, rotos, gastos, tamanhos pequenos para a idade e também grandes e alguns
um pouco sujos, todos de gravata, laço preto e camisa branca amarelada e
coçada. O seu melhor e mais digna indumentária para a Páscoa e receber o sagrado sacramento. Elas em vestido de noiva várias vezes usados, cheios de luzinhas, pérolas e
rendilhados, com o cabelo arranjado, com ganchos de flores brancas grandes e
pequenas que descem pelas caras negras e brilhantes. Todas de meias brancas pelos joelhos e luvas de
todos os feitios, rendas e bordados coçados e descolorados. Todas
bonitas e sorridentes.
Hoje é um dia especial. O dia em que são recebidos pela
comunidade católica e que mostram o orgulho de pertencer.
Fomos
recebidos com a humildade que caracteriza o povo angolano. Igreja cheia, estavam
cerca de mil pessoas, mulheres, homens e crianças de todas as idades. Mal se
conseguia romper ou ver o altar. O nosso motorista pôs os seus contactos em marcha e mesmo depois de uma igreja apinhada de gente, lá fomos catapultados para a frente e logo nos arranjaram duas cadeiras de
plástico branco no palanque, praticamente em frente ao altar. Éramos
os únicos pulas, portugueses brancos, éramos bem-vindos. Partilharam connosco a
sua riqueza. Rezamos juntos.
O ritual da
missa foi surpreendentemente diferente do nosso. Mal se iniciou o ritual,
percebíamos que estávamos em África. Os batuques dos tambores, as matracas, as vozes africanas, com gritos e sons de uma alegria que nos contagiava e emocionava.
Uma missa espectáculo. Cantaram a missa toda
em Kimbundu e em português. Dançaram. Ofereceram aos mais paupérrimos o que
podiam. No ritual das oferendas que conhecemos na missa e que com rotina sem pensar deitamos dinheiro dentro de uma cesta. Aqui o povo descalçou os sapatos em sinal de
respeito por quem têm menos e na cesta das oferendas deram o que
tinham, ovos, amendoins, batatas, bancos de plástico, cadeiras. O que me emocionou
foi saber que quem ofereceu também não tem nada, mas o pouco que tem reparte.
Não tenho
sequer palavras para descrever a simplicidade e humildade que assisti. Estamos
tão longe deste humanismo. África estranha-se e depois entranha-se. Percebo agora o magnetismo que exerce. Tudo o que é menos bom torna-se um detalhe com pouca importância.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
O Narcisico
Sempre quis escrever sobre o narcisismo, ou sobre aqueles que estão apaixonados consigo próprios. Eis que me deparei com uma oportunidade singular.
O narcísico…
A paixão do seu eu, da sua própria pessoa enquanto ser que interage não deixa de ser profundamente, dependente dos outros.
A construção do eu narcísico acontece muito cedo, mas a exacerbação na idade adulta é uma imagem de si próprio imperfeito e singularmente partida. Pois o ser narcísico, aquele que é perfeito em si mesmo, encerra uma contradição absolutamente angustiante, uma vez que constrói um exagerado culto de si próprio, de uma auto imagem perfeita e protectora do seu eu amado ser e só o poderá fazer por comparação. Triste comparação, uma vez que a selecção do que se compara é aleatória e pressupõe uma consonância cognitiva encapuzada constante.
O ser narcísico começa a espalhar-se, a disseminar-se como se de uma doença colectiva se tratasse. Quase todas as plataformas de redes sociais, têm este efeito. Conseguem hiperbolizar o ser narcísico e de repente quase todos dão por si a projectar ou a tentar projectar uma imagem de perfeição e de unicidade do seu eu.
O que escrevemos ou o que se partilha tem a intenção de glorificar o eu, de congelar o momento conseguindo uma grande experimentação do ego. Consciente ou inconsciente a capacidade de conseguir despertar no outro uma grande admiração e adoração por tudo o que o que se projecta em conteúdos.
Ficámos mais pobres… Onde está o verdadeiro narcísico aquele que busca a perfeição ou a elevação do seu eu sem objectivação?
A minha história começa aqui
Fui-me limitando ao sabor dos acontecimentos, agarrando e explorando as entranhas de alguns episódios e outras de vezes as situações foram-me passando ao lado. Sei pelo menos o que não quero.
Sinto-me por vezes alienada, fechada dentro de um corpo que tem de fazer o que tem de fazer, o que se espera, o que é preciso fazer. Gostava de libertar-me, de soltar-me por ai, de saltar e pular aqui e ali, onde me apetecesse… só para me conhecer, saber quem eu sou. Vivo há tantos anos neste corpo, masacho que ainda não sei quem sou. Tenho medo de viver no pleno do querer.
Os anos foram passando, tinha alguns sonhos, mas todos ficaram a meio. A meio se calhar já é bom, mas não sei.
Quando comecei a sentir-me gente, não sabia o que gostava ou o que queria. No entanto, todos e todas à minha volta gostavam disto e daquilo, cantores, bandas, cinema, roupa, rapazes e raparigas. Eu não queria nada, nada me ocorria que gostasse ou que quisesse. Que coisa estúpida. Achei que se rapidamente não conseguisse resolver o que gostar, de quem gostar, colocar um rótulo, colocar um formato sobre mim, ia ser um problema. Não queria ficar à margem, à margem também não sei bem de quê, mas sabia que não queria estar de parte, por não gostar disto e daquilo, apesar de saber que quase sempre estava de parte.
Das primas era a mais nova, a mais magra, a com o cabelo mais comprido que me chupava, a mais tímida, a menos faladora, enfim, quase não me encaixava em lado nenhum, não fosse ser loira com uns olhos verdes tristes e marcantes acho que ninguém reparava em mim.
Com excepção da minha mãe. Adoro a minha mãe. Desde pequena que me leva a todo lado, passeava sempre com ela, e quando estávamos em algum lado, ela deitava sempre um olhinho em mim para sentir se não eu estava muito perdida. Protegeu-me em silêncio e eu gostava, admirava-me por ser silenciosa, por nada exigir, nada querer e nada criticar. Não tenho nada haver com o resto da família, é como se fosse uma espécie de uma adoptada que lhe calhou a ela.
À tarde gostava pentear o meu longo cabelo loiro, como se fosse uma espécie de adorno que tem de se tratar para não mudar de cor. Adoro a minha mãe. Todos os fins-de-semana fazia um bolo ou uma torta, todos os fins-de-semana era uma espécie de festa. Mas às vezes ficava triste… lá tinha eu de ir para casa das minhas primas, com a minha irmã e todas gostam disto e daquilo, deste e daquele e eu não tenho nada para dizer. Que inferno. Não sei de que cantores gosto, a roupa pouco me importa, não tenho ídolos, não colecciono brincos, nem sei músicas de cor, não tenho calças à boca-de-sino, nem calças de ganga.
Mas se pensar bem, gosto de me deitar ao sol a ler o livro dos Cinco, ou a recortar revistas com letras diferentes. Gosto comer fruta das árvores e andar descalça. Gosto de fazer festas em cães e gatos que andam na rua e de ir a Espanha comprar caramelos e chocolates. Gosto quando a minha mãe me penteia e me leva a passear. Gosto de sentir o vento quente de Setembro, vestida com as minhas jardineiras e umas tranças para o cabelo não me tapar a cara. Gosto de andar de bicicleta de ir à praia e deitar-me em cima da areia quente e tomar banho no mar às horas que quase ninguém está na praia.
Acho que a melhor sensação do mundo é sentir e ouvir o vento quente, que nos acaricia o corpo, nos repousa como se o tempo parasse e só nós importássemos. Gosto destas coisas, apesar de não ter cantores favoritos, gostar de actores bonitos que fazem as delícias das adolescentes, não usar as calças à boca-de-sino. Se calhar sou muito nova, ainda uma criança sem me poder identificar com nada, só com a minha mãe. Adoro a minha mãe.
Detesto a cidade, grande e barulhenta onde ainda fico mais incógnita do que já sou, não há vento nem areal, não há cães e gatos a passear sozinhos, não há fruta nas árvores e não posso andar de bicicleta.
A minha história começa aqui.
CAPITULO 1
O vento ainda quente, do longo Verão
que estava quase no fim, fazia rodopiar as poeiras do chão, juntamente com
papéis e pacotes de comida, as ruas estavam vazias. Ainda se sentia um cheiro quente de
terra seca, com salpicos de praia. Ao longe, ouvia-se o vento nas árvores e uma
ambulância que se sabia a correr em aflição para algum hospital. Caminhava cada
vez mais apressadamente. Sentia-se inquieta e vazia. Parecia que sabia para
onde ia, mas na realidade não tinha um plano.
Ainda há três dias, estava no seu
castelo, no seu mundo de seis metros quadrados, pintado de azul e branco, com
umas listas largas, algumas tortas, que ficaram depois de tirar a fita. Mas a
harmonia que se vivia entre almofadas, caixinhas, prateleiras de livros e
discos, colares pendurados nos espelhos, entre chapéus e echarpes, dava-lhe a
sensação de segurança. Os posters cuidadosamente colados a mostrar o ideal de
beleza inatingível dos cantores, davam o toque de rebeldia. Ali estava, fechada
com os livros e a sua música, nada mais interessava, nada mais havia. Pela casa
voava um cheiro a bolos de laranja, sentia-se o calor do forno, era acolhedor e
confortante. Ali, naquele pequeno mundo nada podia atingi-la. Colocava a música
mais alta, assim acordava as emoções que queria sentir. Era Enola Gay dos OMD.
Estava feliz. Sentia-se radiante. Aquele sentimento que perpetuava sempre que
se sentia bem.
Numa quarta-feira tudo mudou.
Agora, tinha de andar mais
depressa, tinha de resolver o que acha que viu. Nunca tinha visto nada assim. Foi
como se quebrassem o seu mundo, como se destapassem o véu do Érebo. Mal sabia o
que pensar e o que dizer. Reinava um silêncio calado por todo o lado.
Aconteceu quando saia das aulas
com as amigas e desciam, como sempre, a Rua Jardim do Regedor para a estação
dos Restauradores, viu o que nunca devia ter visto. Viram o que nunca esperaram ver. Foi como se o que viram fizesse ruir tudo nas suas vidas. Não fazia sentido.
Naquele dia, como outro igual, iam todas estudar para casa da Sílvia. Não era bem estudar, fumavam cigarros às escondidas e falavam de rapazes, coisas proibidas, mas animadamente, como se ao se ouvirem concretizassem as suas paixões. Todas queriam saber quem gostava de quem. Riam parvamente daquilo que achavam que era os defeitos dos rapazes, como se isso lhes desse poder sobre eles. Era as calças que eram foleiras ou as camisolas com bandas de heavy ou o cabelo que era curto ou os ténis… Horrendo. Mas também havia aqueles que tinham camisas de xadrez, com calças de ganga 50, com os ténis e o cabelo certo, que nos faziam suspirar. Mas naquele dia, só Leonor fumou e ninguém falou. Era um silêncio de medo e de perturbação. Ninguém queria falar, ninguém tinha vontade de falar sobre o que aconteceu, sobre o que nos aconteceu. A partir daqui nunca mais iria ser nada igual. Neste dia sem fim, sem palavra ou memória, restou o desfazer dos sonhos. O sentir da entrada violenta de uma realidade esmagadora.
Naquele dia, como outro igual, iam todas estudar para casa da Sílvia. Não era bem estudar, fumavam cigarros às escondidas e falavam de rapazes, coisas proibidas, mas animadamente, como se ao se ouvirem concretizassem as suas paixões. Todas queriam saber quem gostava de quem. Riam parvamente daquilo que achavam que era os defeitos dos rapazes, como se isso lhes desse poder sobre eles. Era as calças que eram foleiras ou as camisolas com bandas de heavy ou o cabelo que era curto ou os ténis… Horrendo. Mas também havia aqueles que tinham camisas de xadrez, com calças de ganga 50, com os ténis e o cabelo certo, que nos faziam suspirar. Mas naquele dia, só Leonor fumou e ninguém falou. Era um silêncio de medo e de perturbação. Ninguém queria falar, ninguém tinha vontade de falar sobre o que aconteceu, sobre o que nos aconteceu. A partir daqui nunca mais iria ser nada igual. Neste dia sem fim, sem palavra ou memória, restou o desfazer dos sonhos. O sentir da entrada violenta de uma realidade esmagadora.
O que poderia ter acontecido? Como poderia ter acontecido uma
coisa daquelas? Como? Como é que alguém podia ter invadido a vida sem razão, sem permissão e sobretudo sem aviso. Parecia que o seu mundo ficara de repente sombrio e finito.
Nunca tinha pensado na morte. Sabia que morríamos, mas só os velhos, não
aqueles que são jovens, atraentes e que radiavam entusiasmo. Causava-lhe
agitação saber que alguém que já tinha falado, rido e brincado, estava agora
morto. Mas como? O que poderia ter acontecido? Passou o dia todo a pensar nisto
a interrogar-se por que razão acontecia e como poderia ter acontecido. O Miguel
era tão divertido, sempre falador e cheio de charme. Era o rapaz mais bonito da
escola. Quando ele entrava todos olhavam para ele. Ser seu amigo era como ser também
bonito e irradiar aquela luz de excitação de ser e estar.
Quando desciam a rua, entre dois
carros, lá estava ele irreconhecível. Tinha a cara esmagada e estava sujo,
faltava-lhe um sapato e tinha o fecho do casaco meio arrancado. O sangue
escorria-lhe pelo cabelo e empapava os caracóis loiros. A pele da cara tinha
sangue escuro e seco, numa expressão sem vida e sem existência. Já não parecia
bonito, nem parecia ter aquela luz que todos queriam.
Intrigada, surpreendida e
amedrontada. Sentiu um formigueiro a invadir-lhe o corpo e sem controlar o
medo, caíram-lhe as lágrimas pela cara, em silêncio.
Interrogava-se vezes sem conta
como poderia ter acontecido isto com o Miguel. Não com alguém que conhecesse.
Isto parecia uma coisa de filmes. Parecia uma situação dos telejornais. Como
poderia ter morrido tão violentamente?
Mal conseguia dormir, agitada na cama, sem posição, aquela memória
não lhe saia do pensamento. Parece que em tudo o que fazia era atormentada pelo
corpo desfalecido, mal tratado e imperturbável. A vida ficou com outro
significado. Um significado de fragilidade e de incógnita. Agora já nada sabia,
vivia atemorizada com o que poderia acontecer. Mas os dias passavam e parecia
que cada vez tudo fazia menos sentido. Foi assim que percebeu que por muito que
se esteja ligada às pessoas, nunca se conhece tudo ou o que parece não o é
verdadeiramente.
Saia de casa impaciente, era
sábado. Quis voltar aquele sítio onde o tinha visto pela última vez. Estava
compelida a regressar. Não conseguia pensar noutra coisa. Parece que o medo se sobrepôs à curiosidade de saber a sua maior interrogação.
Quando chegou, ao caminho que fazia
quase todos os dias, olhou pela primeira vez com olhos de ver. A rua era suja e
vazia. Já não parecia uma rua típica de Lisboa. Parecia uma rua abandonada, sem
som, sem gente. Só conseguia ouvir o vento nos cabelos.
Uma fila de carros estacionados,
que nem faziam sentido. Onde estava toda a gente? Nunca tinha olhado bem para aquela rua, por onde passou inúmeras vezes, na realidade nunca tinha olhado. Ao olhar de cima da rua, via prédios antigos pequenos velhos e quase abandonados. Uns estavam tapados por estar devolutos. Outros ainda tinham meia vida. Na rua havia um sapateiro,
que fazia também chaves, era tão pequena a loja que só cabia um cliente de cada
vez e tinha um aspecto sujo e desarrumado, como se fosse impossível encontrar qualquer coisa. Mesmo em frente ao lugar onde viu o
Miguel pela última vez, estava um prédio velho com uma porta verde-escuro,
quase preta, gasta na tinta nos cantos e com um ar pesado de quem nunca era
aberta, cheia de pó seco da estrada, as janelas estavam fechadas. A calçada estava
suja, cinzenta e pingava aqui e ali de líquidos peganhentos de um pouco de tudo,
uma vez que havia uma tasca mais abaixo e que quando passávamos tínhamos os cheiros de vinho
azedo, o chão sempre cheio de papéis e com um ar desmazelado, gasto e desarranjado.
A rua parecia despovoada.
Desolada.
Enquanto estava ali a olhar,
parada, à espera que alguma coisa exprimisse algo. O vento batia-lhe no rosto e
fazia-lhe arrepios do cabelo lhe tocar na face, arrependeu-se de estar ali, queria fugir e afastar-se o mais rapidamente
que conseguisse.
Mas estava estática até que
alguma coisa lhe tocou no ombro e deu um salto e sentiu os ácidos da adrenalina a bloquearem-lhe os movimento e ao mesmo tempo saiu-lhe um grito seco.
Sentiu outro arrepio com tremor a subir-lhe pelo corpo. Olhou e viu o Zé. Descomprimiu. O Zé era
um rapaz calado e muito inteligente. Era o melhor da turma. Nunca faltava às
aulas ou se juntava a grupos depois das aulas. Era raro falar. Estava sempre a
ouvir música com os headphones na cabeça e a rabiscar qualquer coisa. Tinha um cabelo meio despenteado, castanho dourado e comprido a tapar-lhe o rosto. Acho que nunca tinham
falado antes. Acho que nunca tinha olhado para ele tão perto.
- Desculpa! Assustei-te? O que é que estás aqui a fazer a um sábado?
Perguntou o Zé.
- Nada. Respondeu. E tu?
- Não sei. Não tinha nada para fazer e resolvi passar por aqui. Agora
já nunca passo por aqui. Vou pela Rua dos Condes.
- Tens medo? Perguntou-lhe
- Não sei. Acho que não é isso. Tenho a sensação que se não passar por
aqui parece que não aconteceu. Eu nem era amigo dele. Respondeu-lhe.
- Mas hoje vieste?
- Bem tenho de ir Constança.
- Espera, vou contigo.
O Zé queria fugir, mas a
Constança também. Desceram a rua em silêncio, em passos largos. O Zé andava
cada vez mais rápido como se não quisesse ter companhia. Mas como a Constança só queria desaparecer dali nem se importou.
Quando chegou à estação dos comboios sentiu uma espécie de alívio, mas o vazio
continuava, com uma sensação de desorientação. Sentou-se num banco e o Zé
sentou-se em frente do lado oposto, escorregou pelo banco. Não falaram. Ele pôs
os auriculares e a música ouvia-se, estava tão alta. Assim era impossível pensar. A Constança só queria chegar a casa e não pensar em mais nada. Ligar a música e deitar-se com os olhos fechados na esperança que tudo desaparecesse. Quando o combóio chegou a Sintra e olhou
para o lado já o Zé tinha saído. Via-o todos os dias no comboio, mas nunca
falaram e este foi mais um dia.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Cinzento
Entre a chuva e o
nevoeiro, o cinzento e o nublado com que a natureza nos brinda hoje. Existem os
humores. Maus humores porque não há sol. Com tudo podem, de tudo dizem e tudo
calam, como a justificar a culpa do tempo.
A culpa não é minha por
estar taciturno.
A culpa não é minha por
te responder de esguelha.
A culpa não é minha por
não ter entusiasmo de viver.
E lá culpamos o tempo
pingão e pegajoso, com o frio a entrar pelas partes desfraldadas. Parece mesmo
que vamos ficar de mau humor mais uns meses, até que o sol apareça. E depois
começa. Começa a brilhar quase parado em direcção ao mesmo sítio, a temperatura
sobe tanto que por vezes nos sufoca. Mas então! Depois começa. Está demasiado
calor... Não aguento este calor... Sinto-me mal...
Mas então em que é que
ficamos? Que chatos!
Por mim digo. Adoro estes
dias de chuva pequenina, com o vento a cortar a respiração. Faz-me lembrar a
minha infância. Quando usar guarda-chuva ou o carapuço era um suplício e se
ninguém estivesse ou olhasse desenvencilhava-me desses adereços.
Que giro era saltar numa
poça, apanhar uns pingos na cara e senti-la a escorrer na pele.
De onde estou vejo o
Cristo-Rei, parado, opaco com o cinzento do nevoeiro, de vez em quando o
barulho de uma gota pesada no vidro. Mas nem pensar em ir saltar nas poças e
nos charcos que ficam com os carros a passar ou apanhar chuva no cabelo.
Que pena!
Between the rain and fog, gray and overcast with what nature offers us today. There are moods . Bad moods because there is no sun. Everything can said and everything can be silent to justify the guilt of the weather.
This is not my fault for being taciturn.The fault is not mine to answer you slant.This is not my fault for not having enthusiasm for living .
And there we blame the trickle and sticky weather, the cold enter through unfurled clothes. It really seems like we get a few more months sulking, until the sun comes up. And then begins. Begins to glow almost stopped towards the same place, the temperature rises so much that sometimes chokes us. But then! Then begins. It's too hot ... I can not stand this heat ... I feel bad ...
But then where does that leave us? What bored people!
Why? I say. I love these days of little rain, with the wind breathtaking. It reminds me of my childhood. When using umbrella or hoody was a torture and if nobody was looking or be the I unravel of these props.
It was turning into a puddle jump, catch a few drops on the face and feel it dripping on the skin.
From where I see the Cristo-Rei, standing, with opaque gray fog, occasionally the sound of a heavy drop in the glass. But not even think about going to jump in puddles and ponds that are the cars to pass or catch rain in her hair.
What a pity!
Between the rain and fog, gray and overcast with what nature offers us today. There are moods . Bad moods because there is no sun. Everything can said and everything can be silent to justify the guilt of the weather.
This is not my fault for being taciturn.The fault is not mine to answer you slant.This is not my fault for not having enthusiasm for living .
And there we blame the trickle and sticky weather, the cold enter through unfurled clothes. It really seems like we get a few more months sulking, until the sun comes up. And then begins. Begins to glow almost stopped towards the same place, the temperature rises so much that sometimes chokes us. But then! Then begins. It's too hot ... I can not stand this heat ... I feel bad ...
But then where does that leave us? What bored people!
Why? I say. I love these days of little rain, with the wind breathtaking. It reminds me of my childhood. When using umbrella or hoody was a torture and if nobody was looking or be the I unravel of these props.
It was turning into a puddle jump, catch a few drops on the face and feel it dripping on the skin.
From where I see the Cristo-Rei, standing, with opaque gray fog, occasionally the sound of a heavy drop in the glass. But not even think about going to jump in puddles and ponds that are the cars to pass or catch rain in her hair.
What a pity!
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Stop all the clocks
Não quero ser velha. Como é que ficamos aprisionados num
corpo que vai envelhecendo? Ficamos, sem dúvida alguma, colados numa certa idade
mental que não é a mesma que a física. Não me custam os anos, ou o número a
aumentar. Aflige-me, sobretudo, a espécie do murchar a que assistimos de nós
próprios.
Ainda não vivi tudo. Ainda não fiz tudo o que queria e a
cada segundo vejo o tempo passar. Sem retorno e piedade.
Quando estamos com pessoas mais novas. O estatuto da idade
pesa. Pesa, mas ao contrário. São os mais novos que nos emprateleiram e nos
acomodam no espectro da distância geracional. Mas a questão é: não estamos tão
longe deles de pensamento. Sabemos exactamente os erros que vão cometer. Onde vão falhar e o que vão fazer às escondidas. Não estamos tão longe deles como tivemos dos nossos pais.
Não só no que diz respeito à informação. Mas sobretudo à maneira de encarar o
mundo. Estamos próximos porque a fossa dos acontecimentos é imediata e colada à da geração anterior-
Não quero ser velha. Essa é a contenda. Quero viver para
sempre. Quero saber tudo. Quero aprender tudo. Quero conhecer tudo. E sobretudo,
quero aprender com os meus erros e voltar a ter mais uma, mais mil
oportunidades para tudo. Não porque erro tanto, mas porque vivo devagarinho e o
tempo para mim não passa ao mesmo tempo dos outros todos. Não é justo. Deveria haver
uma equação matemática que calculasse a velocidade a que cada um vive e ajustasse
a unidade de medida tempo.
Não quero ser velha. Não quero ver a pele a murchar e a secar. A
máquina óssea a empenar. O cérebro a adormecer a aperceber-se, como se a sua
impotência assistisse,
Quero ter outra vez 20 anos. Quero outra vez fazer aquelas tertúlias
de discussões filosóficas, absolutamente vazias de conteúdo, que demoravam
horas e geravam as discussões mais arrebatadoras e extremistas que alguma vez
tive na vida. Como se a opinião tivesse de ser defendida como um erário e a
demostração de identidade própria de cada um. O que era sem tirar nem pôr.
Quero outra vez viajar pela europa com muito pouco dinheiro,
conhecer tudo e todos, saber ver e conhecer. Quero não saber o que vou fazer a
seguir. Quero outra vez ver cinque terre como se o mundo ali começasse. Quero
outra vez sentir o frio de Frankfurt com vinho quente em copo de plástico.
Quero outra vez sentir a areia na pele com sol a marcar mais de 30 graus nas costas e
não me importar. Quero entrar dentro do mar sem pensar no frio. Quero beber
vinho tinto com seven-up. Quero outra vez esperar pelos meus amigos na estação
dos combóios sem telemóvel e esperar com todo o tempo do mundo. Quero outra vez aterrar em NY com 17
anos e sentir a liberdade. Quero outra vez regressar a Lisboa e chorar quando
vejo a ponte sobre Lisboa e o Cristo Rei. Quero dançar ao som de Commundards.
Quero sentir nas mãos um disco novo e tocá-lo vezes sem conta. Quero jogar à
canasta e ao king, com amendoins e coca-cola. Poderia fazer uma lista infinita.
Mas ocorre-me que tudo isto foi o caminho para o mais importante da minha vida.
A minha edificação na terra. O meu oxigénio. O meu sentido e o meu norte. A
Francisca.
No dia em que nasceu. O mundo fez sentido. E lembra-me o
poema de W. H. Auden, quando ele diz “stop all the clocks”. Foi isso me aconteceu.
De repente nada mais importava. Só ela. Era tão pequenina. Tão frágil. Tão
macia. Tão meiguinha.
Nada na vida consegue
ser superior à experiência de ter tido a minha filha nos braços. Desde ai não
mais a larguei, não mais fiz planos e não planos, com e sem ela.
A razão de ser melhor pessoa é porque ela existe.
Não quero ser velha. Mas se o preço é este estou disposta a
aceitar.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Desculpem-me
Desculpem-me os senhores a quem não reconheci a inteligência, não reconheci a notória educação, não reconheci a característica de humildade tão apregoada em todos os momentos.
Desculpem-me o não reconhecimento pela capacidade de respeito que nutrem tão manifestamente pelos outros. E eu que pela minha veemência de falta de clareza de espirito não consigo ver em tempo útil. Que não consigo perceber tal nobreza de humanidade e de prontidão de relacionamento fácil.
Quanto mais me conheço mais incapacidade tenho de não reconhecer e de cometer tantos enganos, de fazer tantos erros de reconhecimento de características tão nobres.
Excuse me the people who I did not recognized the intelligence, who I did not recognized the notorious education, who I did not recognized the characteristic of humility as preached at all times.
Excuse me if I'm not able to recognize that nourish so manifestly respect for others. And I vehemently for my lack of mental clarity that I cannot see in real time. I canot realize such nobility of humanity and readiness easy in relationship.
The more I know myself the more inability to recognize and to make so many mistakes, of recognition errors of such noble characteristics.
Quanto mais me conheço mais incapacidade tenho de não reconhecer e de cometer tantos enganos, de fazer tantos erros de reconhecimento de características tão nobres.
Excuse me the people who I did not recognized the intelligence, who I did not recognized the notorious education, who I did not recognized the characteristic of humility as preached at all times.
Excuse me if I'm not able to recognize that nourish so manifestly respect for others. And I vehemently for my lack of mental clarity that I cannot see in real time. I canot realize such nobility of humanity and readiness easy in relationship.
The more I know myself the more inability to recognize and to make so many mistakes, of recognition errors of such noble characteristics.
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