Chove torrencialmente. Está tudo pingão e
cinzento. Do meu gabinete vejo o Cristo-Rei metido dentro das nuvens cinzentas.
Os tons de cinzento escuro estão por todo o lado e a paisagem esconde-se atrás
de um nevoeiro que não deixa ver as cores e o desenho dos prédios coloridos de
Lisboa. O recorte pequeno do rio Tejo que vejo da minha janela está tão escuro
que parece um poço. Este
cinzento confunde-se com o meu estado de alma. Entranha-se. Nestes dias que te
retalham a alma com traz-me à memória os dias intermináveis da semana chuvosa
quando era pequena. Não gosto de pisar as poças de água, molho os sapatos,
tenho frio. O frio não te deixa viver, às vezes ver, às vezes sentir
aquela brisa de vida que o sol traz. Preciso de ver as cores todos os dias.
Este é um blog de ideias, pensamentos, experiências, opinião, histórias verdadeiras e ficcionadas. Aqui pode aparecer de tudo. É uma editora online sem censura, despretensiosa e simples. O "livro" que faltava escrever para marcar a passagem pela Terra.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
segunda-feira, 21 de março de 2016
Mais um dia...
Entro de cabeça erguida. Mais um dia com tanta gente há
minha volta, mas com a sensação de solidão. A sensação que nada do que dizem é
verdadeiro ou tem interesse. Oiço falarem mas não estou a processar. Tenho a
cabeça noutro sítio. Sei que estou a responder por intuição da linguagem
verbal. Correspondo mas sem pensar ao que dizem. Tenho um desinteresse quase de
desprezo por o que falam, todos em grande preocupação, pela preocupação
inexacta e por um amparo vazio. A curiosidade de todos é uma curiosidade necrófoba.
É aquela curiosidade de ver a tragédia e
sentir que as vidas deles são melhores ou estão melhores. É a eterna miséria
poucochinha do português. Os coitados têm sempre a solidariedade, oca, pois
claro, pouco real, de quem se quer sentir melhor com a merda de vida que têm.
Tenho sempre esta sensação que as palavras que me dizem não
são verdadeiras, são clichés sociais que precisam de ser ditos naquele momento.
Mas entro e sorrio e agradeço e prometo tratar da minha saúde. E entro com uma
sensação agridoce que me faz sentir arrepios. Não sei o que pensam
verdadeiramente, mas na realidade nunca me interessou o que pensam. Se parar,
escuto os pensamentos de toda a gente. Escuto a censura e o sentir de vitória.
Se escutar com atenção sei o que pensam. Na realidade não me interessa o que
pensam, nem tão pouco o que sentem.
Hoje é um dia diferente. O dia que tinha medo que
acontecesse. Aconteceu há uns dias. O dia do cair, do sucumbir e do morrer um
bocadinho. Há muito que tinha medo deste dia. Agora que aconteceu, tenho medo
que marque um marco na minha vida. Tenho medo de não conseguir fingir um pouco
mais ou de já não conseguir fingir.
Preciso de juntar os cacos, colar de alguma forma e
prosseguir. Vou arranjar uma maneira. Penso isto enquanto ainda escuto algumas
pessoas aqui dentro. Vou dizendo que sim e pensando na estratégia de
prosseguir.
Até um dia. Se chegar.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Alheio a tudo. Ali estava ele. Dormia tranquilamente. Só de olhar trazia-me paz. Uma paz que não encontro. Uma paz que preciso e não vem. É um turbilhão de pensamentos. Ocorre-me sempre o fim e um caminho que não acaba, sem fim e escuro. Não tenho medo, mas estou cansada. Apetece-me deitar-me ao lado dele para que a paz dele me chegue também. Para que ele me dê aquela tranquilidade e quietude de quem não tem com que se preocupar ou sentir em sobressalto. Ocorre-me fugir. Ocorre-me tentar voltar atrás e tentar repetir tudo de novo. Como quem tenta repetir um teste à procura de uma nota mais satisfatória. Ocorre-me deixar-me ir.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
A vida
Com o passar dos anos, de repente, temos mais de quarenta. Quando olhamos para trás, não foi só depressa que passou. Já nem nos lembramos como se passou cada ano com clareza. Já não nos lembramos se sugamos a vida ao máximo ou se foi a vida que nos sugou a nós, em cada ano que passou. Não foi só num ápice que passaram as últimas décadas sem darmos o real valor da vida, ao mais precioso bem da nossa vida. A nossa vida.
Quanto vale a nossa vida? Para nós e para os outros?
Quanto estamos dispostos em investir nesta vida para sermos melhores, para conseguirmos ser mais felizes, para nos sentirmos bem com a vida que temos?
Quanto mais felizes somos, mais valor há na nossa vida?
Quanto mais temos ainda por fazer e experimentar, mais valor há na nossa vida?
Estamos vivos e tudo vivemos? Talvez sim! Mas falta-nos o peso da alegria das experiências que achamos quer perdemos, que poderíamos ter feito diferente e até que decidimos que não tinham interesse. Com o passar dos anos parece que não me lembro de tudo. Tenho medo de me esquecer.
Foi o pouco tempo que temos, as preocupações com os filhos, a carreira que paga as contas, o cansaço físico depois de uma semana de trabalho, aquele episódio que nos deixou triste, aquela pessoa que nos lixou, as responsabilidades, as filas no transito, sei lá...
E depois fica pouco tempo para sorrirmos e para estarmos vivos, vivos de vida. Daquela vida que nos envolve e nos aperta. Daquela vida que nos faz sentir vivos, daquela que nos dá as emoções, os sentimentos e nos faz estremecer. Daquela que nos faz pôr o sorriso nos lábios e sentirmos-nos mais vivos.
Entretanto, já passaram mais de quarenta anos... O corpo que vai envelhecendo a passos largos, não larga um cérebro mais novo. E damos por nós a olhar para os miúdos com um olhar de miúdos, mas sem ser miúdos e pior sem ser percebidos que um dia fomos miúdos.
Não tenho tristeza do que não vivi ainda, tenho tristeza daquela juventude que foi tão rápida e que me aprisionou de certa forma e que agora me cobra mais.
Hoje tenho a certeza que quero aquela vida que saboreia o mundo, aquela que, apesar das filas de trânsito e das contas para pagar, nos dá aquele sorriso sem esforço e sobretudo sem pedir.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
À beira de um precipício vai a vida quando se quer intensa.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Sexta-feira 13
Sexta-feira dia 13. Dia do azar. Dia onde as forças negras podem convergir para teres uma grande infelicidade.
Parece-me a mim que o dia não precisa de ter essa data para o infortúnio te bater à porta. Todas as decisões que tomamos convergem para acontecimentos, sem falar nas questões de saúde, pelo menos totalmente.
O azar é geralmente aquilo para o qual contribuímos, mas queremos em pensamento contrafactual arranjar argumentos de explicação e justificação, que apenas contribuem para nada se aprender ou mesmo evoluir.
Na realidade contribuímos para tudo. Salvo honrosas excepções que seres humanos excepcionais nos podem oferecer a partir da sua boa formação moral e ética.
Parece-me a mim que o dia não precisa de ter essa data para o infortúnio te bater à porta. Todas as decisões que tomamos convergem para acontecimentos, sem falar nas questões de saúde, pelo menos totalmente.
O azar é geralmente aquilo para o qual contribuímos, mas queremos em pensamento contrafactual arranjar argumentos de explicação e justificação, que apenas contribuem para nada se aprender ou mesmo evoluir.
Na realidade contribuímos para tudo. Salvo honrosas excepções que seres humanos excepcionais nos podem oferecer a partir da sua boa formação moral e ética.
Desonestidade Intelectual
Não há nada mais deprimente do
que o ser humano que joga com as palavras. Joga consoante o seu interesse,
consoante o momento e até num jogo de palavras manipula o seu interlocutor. Na
desonestidade intelectual existem dois tipos de pessoas que a fazem, os que têm
a perfeita consciência do jogo de manipulação e os que não têm a consciência,
ou seja os burros. Parece-me a mim que a burrice também não passa da manha das
palavras para quando dá jeito. Ora se conseguem ser desonestos
intelectualmente, consciente ou inconscientemente remetem-se para níveis de
manipulação, próprios de pessoas que não na vida para relativizarem tudo ou para com frontalidade encararem os momentos como eles deverão ser. Factuais. Não se pode ganhar sempre, não se pode estar sempre por cima, não se pode capitalizar sempre, não se pode usar sempre os outros.
A desonestidade intelectual é das
coisas que mais me aflige nas pessoas. É uma espécie do que dá mais jeito, uma
espécie de "deixa-me lá perceber se me posso safar", é uma espécie de
"deixa-me somar". Torna o raciocínio distorcido, as discussões
vazias e sobretudo a oportunidade de aprender mais viva e presente. Aprende-se,
naturalmente, a estar na vida com um instinto de sobrevivência assustador. Mas parece que todos aceitamos isto, com alguma passividade.
O ser humano desonesto
intelectualmente encerra em si a contradição sempre latente. Existe neste tipo
de índole uma relativização de tudo para o nível do interesse, sempre próprio.
Não deixa de ser interessante o
momento, em que com honestidade, quer arrecadar a honestidade, momento raro,
mas que existe e sempre com grande admiração se constata.
Carece, ainda neste espaço de
abstracção sobre esta questão, tentar definir a questão da desonestidade intelectual.
Uma pessoa é intelectualmente
honesta quando, sabendo a verdade, afirma a verdade, reflecte sobre a verdade,
infere sobre a verdade, cujo único elemento são os factos que a compõem.
Dou alguns exemplos da
desonestidade intelectual. Factos e informações relevantes podem ser
propositadamente omissos quando as situações contradizem a própria hipótese, ou
factos podem ser apresentados de forma parcial ou retorcidos com conclusões enganosas,
de modo a dar a entender outro caminho que não aquele que faz direito à verdade
colocada. De um modo geral, qualquer um destes comportamentos cairia sempre
sobre a desonestidade intelectual.
Também existe outro tipo de derivações
da desonestidade intelectual. Aquele que ignora deliberadamente factos, argumentos
ou informações que possam prejudicar a sua posição. Aqui estamos perante a subcategoria
de ignorância intencional. Mas quem é que ignora intencionalmente? O desonesto
intelectual.
As formas mais comuns de
desonestidade intelectual incluem o plágio, a aplicação de padrões duplos,
usando falsas analogias, exagero e generalização, apresentando argumentos palha
e envenenando o bem que advir dos factos ou acontecimentos.
Como digo, não há nada pior que
este tipo de estirpe, acima disto só o mentiroso ou o mitómano. Outro argumento
para escrever neste blog.
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