segunda-feira, 21 de março de 2016

Mais um dia...



Entro de cabeça erguida. Mais um dia com tanta gente há minha volta, mas com a sensação de solidão. A sensação que nada do que dizem é verdadeiro ou tem interesse. Oiço falarem mas não estou a processar. Tenho a cabeça noutro sítio. Sei que estou a responder por intuição da linguagem verbal. Correspondo mas sem pensar ao que dizem. Tenho um desinteresse quase de desprezo por o que falam, todos em grande preocupação, pela preocupação inexacta e por um amparo vazio. A curiosidade de todos é uma curiosidade necrófoba. É aquela curiosidade  de ver a tragédia e sentir que as vidas deles são melhores ou estão melhores. É a eterna miséria poucochinha do português. Os coitados têm sempre a solidariedade, oca, pois claro, pouco real, de quem se quer sentir melhor com a merda de vida que têm.
Tenho sempre esta sensação que as palavras que me dizem não são verdadeiras, são clichés sociais que precisam de ser ditos naquele momento. Mas entro e sorrio e agradeço e prometo tratar da minha saúde. E entro com uma sensação agridoce que me faz sentir arrepios. Não sei o que pensam verdadeiramente, mas na realidade nunca me interessou o que pensam. Se parar, escuto os pensamentos de toda a gente. Escuto a censura e o sentir de vitória. Se escutar com atenção sei o que pensam. Na realidade não me interessa o que pensam, nem tão pouco o que sentem. 
Hoje é um dia diferente. O dia que tinha medo que acontecesse. Aconteceu há uns dias. O dia do cair, do sucumbir e do morrer um bocadinho. Há muito que tinha medo deste dia. Agora que aconteceu, tenho medo que marque um marco na minha vida. Tenho medo de não conseguir fingir um pouco mais ou de já não conseguir fingir.
Preciso de juntar os cacos, colar de alguma forma e prosseguir. Vou arranjar uma maneira. Penso isto enquanto ainda escuto algumas pessoas aqui dentro. Vou dizendo que sim e pensando na estratégia de prosseguir.

Até um dia. Se chegar.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Alheio a tudo. Ali estava ele. Dormia tranquilamente. Só de olhar trazia-me paz. Uma paz que não encontro. Uma paz que preciso e não vem. É um turbilhão de pensamentos. Ocorre-me sempre o fim e um caminho que não acaba, sem fim e escuro. Não tenho medo, mas estou cansada. Apetece-me deitar-me ao lado dele para que a paz dele me chegue também. Para que ele me dê aquela tranquilidade e quietude de quem não tem com que se preocupar ou sentir em sobressalto. Ocorre-me fugir. Ocorre-me tentar voltar atrás  e tentar repetir tudo de novo. Como quem tenta repetir um teste à procura de uma nota mais satisfatória. Ocorre-me deixar-me ir.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A vida

Com o passar dos anos, de repente, temos mais de quarenta. Quando olhamos para trás, não foi só depressa que passou. Já nem nos lembramos como se passou cada ano com clareza. Já não nos lembramos se sugamos a vida ao máximo ou se foi a vida que nos sugou a nós, em cada ano que passou. Não foi só num ápice que passaram as últimas décadas sem darmos o real valor da vida, ao mais precioso bem da nossa vida. A nossa vida. 
Quanto vale a nossa vida? Para nós e para os outros? 
Quanto estamos dispostos em investir nesta vida para sermos melhores, para conseguirmos ser mais felizes, para nos sentirmos bem com a vida que temos? 
Quanto mais felizes somos, mais valor há na nossa vida? 
Quanto mais temos ainda por fazer e experimentar, mais valor há na nossa vida?

Estamos vivos e tudo vivemos? Talvez sim! Mas falta-nos o peso da alegria das experiências que achamos quer perdemos, que poderíamos ter feito diferente e até que decidimos que não tinham interesse. Com o passar dos anos parece que não me lembro de tudo. Tenho medo de me esquecer. 

Foi o pouco tempo que temos, as preocupações com os filhos, a carreira que paga as contas, o cansaço físico depois de uma semana de trabalho, aquele episódio que nos deixou triste, aquela pessoa que nos lixou, as responsabilidades, as filas no transito, sei lá... 

E depois fica pouco tempo para sorrirmos e para estarmos vivos, vivos de vida. Daquela vida que nos envolve e nos aperta. Daquela vida que nos faz sentir vivos, daquela que nos dá as emoções, os sentimentos e nos faz estremecer. Daquela que nos faz pôr o sorriso nos lábios e sentirmos-nos mais vivos.

Entretanto, já passaram mais de quarenta anos... O corpo que vai envelhecendo a passos largos, não larga um cérebro mais novo. E damos por nós a olhar para os miúdos com um olhar de miúdos, mas sem ser miúdos e pior sem ser percebidos que um dia fomos miúdos.

Não tenho tristeza do que não vivi ainda, tenho tristeza daquela juventude que foi tão rápida e que me aprisionou de certa forma e que agora me cobra mais.

Hoje tenho a certeza que quero aquela vida que saboreia o mundo, aquela que, apesar das filas de trânsito e das contas para pagar, nos dá aquele sorriso sem esforço e sobretudo sem pedir.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

À beira de um precipício vai a vida quando se quer intensa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Sexta-feira 13

Sexta-feira dia 13. Dia do azar. Dia onde as forças negras podem convergir para teres uma grande infelicidade.
Parece-me a mim que o dia não precisa de ter essa data para o infortúnio te bater à porta. Todas as decisões que tomamos convergem para acontecimentos, sem falar nas questões de saúde, pelo menos totalmente.
O azar é geralmente aquilo para o qual contribuímos, mas queremos em pensamento contrafactual arranjar argumentos de explicação e justificação, que apenas contribuem para nada se aprender ou mesmo evoluir.
Na realidade contribuímos para tudo. Salvo honrosas excepções que seres humanos excepcionais nos podem oferecer a partir da sua boa formação moral e ética.

Desonestidade Intelectual


Não há nada mais deprimente do que o ser humano que joga com as palavras. Joga consoante o seu interesse, consoante o momento e até num jogo de palavras manipula o seu interlocutor. Na desonestidade intelectual existem dois tipos de pessoas que a fazem, os que têm a perfeita consciência do jogo de manipulação e os que não têm a consciência, ou seja os burros. Parece-me a mim que a burrice também não passa da manha das palavras para quando dá jeito. Ora se conseguem ser desonestos intelectualmente, consciente ou inconscientemente remetem-se para níveis de manipulação, próprios de pessoas que não na vida para relativizarem tudo ou para com frontalidade encararem os momentos como eles deverão ser. Factuais. Não se pode ganhar sempre, não se pode estar sempre por cima, não se pode capitalizar sempre, não se pode usar sempre os outros.

A desonestidade intelectual é das coisas que mais me aflige nas pessoas. É uma espécie do que dá mais jeito, uma espécie de "deixa-me lá perceber se me posso safar", é uma espécie de "deixa-me somar". Torna o raciocínio distorcido, as discussões vazias e sobretudo a oportunidade de aprender mais viva e presente. Aprende-se, naturalmente, a estar na vida com um instinto de sobrevivência assustador. Mas parece que todos aceitamos isto, com alguma passividade.

O ser humano desonesto intelectualmente encerra em si a contradição sempre latente. Existe neste tipo de índole uma relativização de tudo para o nível do interesse, sempre próprio.
Não deixa de ser interessante o momento, em que com honestidade, quer arrecadar a honestidade, momento raro, mas que existe e sempre com grande admiração se constata.

Carece, ainda neste espaço de abstracção sobre esta questão, tentar definir a questão da desonestidade intelectual.

Uma pessoa é intelectualmente honesta quando, sabendo a verdade, afirma a verdade, reflecte sobre a verdade, infere sobre a verdade, cujo único elemento são os factos que a compõem.
Dou alguns exemplos da desonestidade intelectual. Factos e informações relevantes podem ser propositadamente omissos quando as situações contradizem a própria hipótese, ou factos podem ser apresentados de forma parcial ou retorcidos com conclusões enganosas, de modo a dar a entender outro caminho que não aquele que faz direito à verdade colocada. De um modo geral, qualquer um destes comportamentos cairia sempre sobre a desonestidade intelectual.

Também existe outro tipo de derivações da desonestidade intelectual. Aquele que ignora deliberadamente factos, argumentos ou informações que possam prejudicar a sua posição. Aqui estamos perante a subcategoria de ignorância intencional. Mas quem é que ignora intencionalmente? O desonesto intelectual.

As formas mais comuns de desonestidade intelectual incluem o plágio, a aplicação de padrões duplos, usando falsas analogias, exagero e generalização, apresentando argumentos palha e envenenando o bem que advir dos factos ou acontecimentos.

Como digo, não há nada pior que este tipo de estirpe, acima disto só o mentiroso ou o mitómano. Outro argumento para escrever neste blog.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Os animais e as pessoas

A visão que muitas vezes estás sozinha com o teu pensamento, com a tua abordagem ao mundo, com a tua maneira de ver o mundo, o que acontece muitas vezes, coloca-me numa situação de não carneirismo. Dá-me a perfeita noção que em muitas circunstâncias penso de maneira diferente. Recuso-me a ser mais uma entre muitos e que faz igual, porque é assim que todos esperam e é assim que se faz e é assim que se deve fazer.
Parece que existe um protocolo de ver, fazer e falar com um enquadramento e complacência em determinadas situações que só assim podem ser aceites por todos, caso contrário és maluca, ridícula, deselegante ou mesmo tens a mania que és melhor que os outros. Não que não haja o protocolo de vivermos em sociedade. Respeito os termos de convivência em sociedade, do civismo e do espaço do outro. Diria que até respeito demais. O que não consigo é não deixar de respeitar o meu espaço e a minha visão, quando me pedem essa anulação.
Há muito tempo, muitos anos que sei que o que me define como ser humano, não é o que faço ou o que sou, mas aquilo que quero dar aos outros e aquilo que espero da vida. Das pessoas já espero muito pouco e poucas ou nenhumas expectativas tenho. Ainda aqui e ali vou achando que posso ter alguma expectativa, mas é tão baixa que a desilusão é muito pequena.

Recentemente, o meu querido cão morreu. Desde os três meses de idade que estava connosco, estava em nossa casa. Era um companheiro que víamos como parte da família. Apesar do seu grande porte e de ter espaço no jardim, para correr e estar em liberdade, queria sempre dormir em casa e estar dentro de casa, comer o que comíamos e estar ao pé de nós. No seu instinto animal procurava a sua liberdade e lá ia fingindo quando o portão estava aberto para um passeio de liberdade só dele. Dava uma volta ao quarteirão e voltava, feliz de ter autónomo no seu passeio. Corria muito e gostava que olhassem para ele a correr, eu principalmente. Era forte e leal. Peludo e feroz. Doce e meigo, Foi com grande desgosto que o vi partir. Nunca soube o que ele pensou, nem o que achava. Mas sentia que era da minha família. Nas ultimas duas semanas vi-o sofrer, definhar sem conseguir andar que ele tanto gostava. Sofreu tanto que só de pensar que nunca soube se fiz o suficiente me martiriza. Ensinou-me que mesmo já sem conseguir andar queria viver e continuava a querer levantar-se para passear passear e se esforçava até à ultima. Quase paralitico, doia-me perceber que se queria levantar e não conseguia. Como alguém disse: estes cães são estoicos. Ele era e foi até às ultimas horas estoico, na ultima hora depois de o pormos em pé, cambaleou e deu o seu ultimo passeio, em grande sofrimento, tenho a certeza. Irei para sempre guardá-lo na minha memoria como o meu cão, o meu Fluffy, aquele que todos os dias esperava ao cimo da rampa por mim, a abanar a cauda peluda, e logo que eu abria a porta se deitava ao pé de nós, esticado no chão a ocupar a sala e a passagem. Nunca pensei que me pudesse fazer sentir tão triste a sua partida, o seu sofrimento e sobretudo a sua ausência. O Fluffly quando lhe pediam a pata ele dava a pata, nos ultimos dias quando o pediamos ele punha a pata para trás, como dizendo, já não te posso dar a para. As suas orelhas peludas e fofinhas deste Serra da Estrela, era como um indutor de relaxamento, para quem lhe fazia festas. Faz-me falta.  Dou comigo a ter os mesmos comportamentos como se ele ainda ali estivesse. Fazes-me falta.

O que espero da vida, espero-o há muito tempo. Não no sentido de projecto de vida, pois esse foi totalmente preenchido pelo nascimento da minha querida filha. Mas o que espero do amor ou o que o amor me dê. São pequenos gestos, pequenos demonstrações de "tu és importante", "tu contas" e "eu estarei sempre ao teu lado". Já abdiquei de muita coisa na vida. Já perdoei muitas vezes. Já ultrapassei muitos desaforos a pessoas que são mal formadas e que estão na vida como um acção está na bolsa, Tudo tem um valor, e até podemos trocar, mas a seu tempo, quando sobre ou desce. Mas a vida também já me ensinou que não chega perdoar. As pessoas vão repetir as mesmas acções ou palavras.
Não há nada pior na vida que um ser humano que na sua condição de imortal acha que pode dizer tudo o que lhe vai alma e depois a seguir pedir desculpa. Nada retira aquelas acções ou aquelas palavras. A partir daí só o gesto de querer fazer um pouco melhor pode contar.

Já fui amada por muitos. Muitas paixões assolapadas passaram por mim, dessas paixões existiu sempre o amargo que se não forem compensados na devida visão própria, tornam-se vingativos e dão um retorno de nada mais tenho para dar.

Amor não é dar. Amor é cuidar. Amor para mim é a troca de um momento que é naquele momento que é preciso. Nada passa duas vezes, nada acontece duas vezes. Amor para mim é quando mesmo quando tudo corre mal, está lá alguém que abraça, cuida e sem moeda de troca em silêncio da sentir o seu amor.

Sou parca na manifestação do amor. É um estilo. Não sou de grandes manifestações de carinho. Não tenho grandes planos de surpreender ou de planear coisas românticas. Mas estarei sempre lá quando é preciso. E mesmo quando não é preciso.
Preciso de pouco e pouco ou nada peço. Como alguém me disse não tenho esse direito. Fi-lo há pouco tempo. Pedi. Pedi apenas porque precisava de um abraço, de um espaço, de  um tempo, para me refortalecer. Não veio, não havia. O que pedia era um grande sacrifício ao qual não tinha direito de pedir. Bem verdade! Não tenho o direito de pedir nada a ninguém.
E assim vai o amor dos humanos, sempre cheio de contra partidas, muitas palavras azedas de revolta, muita vingança e muito pouca vontade de fazer algum tipo de concessão sem nada em troca.

Tenho saudades de ti FLUFFY nunca me pediste nada em troca. Como a Brigitte Bardot dizia: Quanto mais conheço os humanos mais gosto dos animais. O que me parecia na altura uma loucura, hoje, revejo-me, compreendo e sinto que é no amor incondicional que estará a verdadeira essência do amor. O amor que só os animais nos podem dar.