quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Sexta-feira 13

Sexta-feira dia 13. Dia do azar. Dia onde as forças negras podem convergir para teres uma grande infelicidade.
Parece-me a mim que o dia não precisa de ter essa data para o infortúnio te bater à porta. Todas as decisões que tomamos convergem para acontecimentos, sem falar nas questões de saúde, pelo menos totalmente.
O azar é geralmente aquilo para o qual contribuímos, mas queremos em pensamento contrafactual arranjar argumentos de explicação e justificação, que apenas contribuem para nada se aprender ou mesmo evoluir.
Na realidade contribuímos para tudo. Salvo honrosas excepções que seres humanos excepcionais nos podem oferecer a partir da sua boa formação moral e ética.

Desonestidade Intelectual


Não há nada mais deprimente do que o ser humano que joga com as palavras. Joga consoante o seu interesse, consoante o momento e até num jogo de palavras manipula o seu interlocutor. Na desonestidade intelectual existem dois tipos de pessoas que a fazem, os que têm a perfeita consciência do jogo de manipulação e os que não têm a consciência, ou seja os burros. Parece-me a mim que a burrice também não passa da manha das palavras para quando dá jeito. Ora se conseguem ser desonestos intelectualmente, consciente ou inconscientemente remetem-se para níveis de manipulação, próprios de pessoas que não na vida para relativizarem tudo ou para com frontalidade encararem os momentos como eles deverão ser. Factuais. Não se pode ganhar sempre, não se pode estar sempre por cima, não se pode capitalizar sempre, não se pode usar sempre os outros.

A desonestidade intelectual é das coisas que mais me aflige nas pessoas. É uma espécie do que dá mais jeito, uma espécie de "deixa-me lá perceber se me posso safar", é uma espécie de "deixa-me somar". Torna o raciocínio distorcido, as discussões vazias e sobretudo a oportunidade de aprender mais viva e presente. Aprende-se, naturalmente, a estar na vida com um instinto de sobrevivência assustador. Mas parece que todos aceitamos isto, com alguma passividade.

O ser humano desonesto intelectualmente encerra em si a contradição sempre latente. Existe neste tipo de índole uma relativização de tudo para o nível do interesse, sempre próprio.
Não deixa de ser interessante o momento, em que com honestidade, quer arrecadar a honestidade, momento raro, mas que existe e sempre com grande admiração se constata.

Carece, ainda neste espaço de abstracção sobre esta questão, tentar definir a questão da desonestidade intelectual.

Uma pessoa é intelectualmente honesta quando, sabendo a verdade, afirma a verdade, reflecte sobre a verdade, infere sobre a verdade, cujo único elemento são os factos que a compõem.
Dou alguns exemplos da desonestidade intelectual. Factos e informações relevantes podem ser propositadamente omissos quando as situações contradizem a própria hipótese, ou factos podem ser apresentados de forma parcial ou retorcidos com conclusões enganosas, de modo a dar a entender outro caminho que não aquele que faz direito à verdade colocada. De um modo geral, qualquer um destes comportamentos cairia sempre sobre a desonestidade intelectual.

Também existe outro tipo de derivações da desonestidade intelectual. Aquele que ignora deliberadamente factos, argumentos ou informações que possam prejudicar a sua posição. Aqui estamos perante a subcategoria de ignorância intencional. Mas quem é que ignora intencionalmente? O desonesto intelectual.

As formas mais comuns de desonestidade intelectual incluem o plágio, a aplicação de padrões duplos, usando falsas analogias, exagero e generalização, apresentando argumentos palha e envenenando o bem que advir dos factos ou acontecimentos.

Como digo, não há nada pior que este tipo de estirpe, acima disto só o mentiroso ou o mitómano. Outro argumento para escrever neste blog.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Os animais e as pessoas

A visão que muitas vezes estás sozinha com o teu pensamento, com a tua abordagem ao mundo, com a tua maneira de ver o mundo, o que acontece muitas vezes, coloca-me numa situação de não carneirismo. Dá-me a perfeita noção que em muitas circunstâncias penso de maneira diferente. Recuso-me a ser mais uma entre muitos e que faz igual, porque é assim que todos esperam e é assim que se faz e é assim que se deve fazer.
Parece que existe um protocolo de ver, fazer e falar com um enquadramento e complacência em determinadas situações que só assim podem ser aceites por todos, caso contrário és maluca, ridícula, deselegante ou mesmo tens a mania que és melhor que os outros. Não que não haja o protocolo de vivermos em sociedade. Respeito os termos de convivência em sociedade, do civismo e do espaço do outro. Diria que até respeito demais. O que não consigo é não deixar de respeitar o meu espaço e a minha visão, quando me pedem essa anulação.
Há muito tempo, muitos anos que sei que o que me define como ser humano, não é o que faço ou o que sou, mas aquilo que quero dar aos outros e aquilo que espero da vida. Das pessoas já espero muito pouco e poucas ou nenhumas expectativas tenho. Ainda aqui e ali vou achando que posso ter alguma expectativa, mas é tão baixa que a desilusão é muito pequena.

Recentemente, o meu querido cão morreu. Desde os três meses de idade que estava connosco, estava em nossa casa. Era um companheiro que víamos como parte da família. Apesar do seu grande porte e de ter espaço no jardim, para correr e estar em liberdade, queria sempre dormir em casa e estar dentro de casa, comer o que comíamos e estar ao pé de nós. No seu instinto animal procurava a sua liberdade e lá ia fingindo quando o portão estava aberto para um passeio de liberdade só dele. Dava uma volta ao quarteirão e voltava, feliz de ter autónomo no seu passeio. Corria muito e gostava que olhassem para ele a correr, eu principalmente. Era forte e leal. Peludo e feroz. Doce e meigo, Foi com grande desgosto que o vi partir. Nunca soube o que ele pensou, nem o que achava. Mas sentia que era da minha família. Nas ultimas duas semanas vi-o sofrer, definhar sem conseguir andar que ele tanto gostava. Sofreu tanto que só de pensar que nunca soube se fiz o suficiente me martiriza. Ensinou-me que mesmo já sem conseguir andar queria viver e continuava a querer levantar-se para passear passear e se esforçava até à ultima. Quase paralitico, doia-me perceber que se queria levantar e não conseguia. Como alguém disse: estes cães são estoicos. Ele era e foi até às ultimas horas estoico, na ultima hora depois de o pormos em pé, cambaleou e deu o seu ultimo passeio, em grande sofrimento, tenho a certeza. Irei para sempre guardá-lo na minha memoria como o meu cão, o meu Fluffy, aquele que todos os dias esperava ao cimo da rampa por mim, a abanar a cauda peluda, e logo que eu abria a porta se deitava ao pé de nós, esticado no chão a ocupar a sala e a passagem. Nunca pensei que me pudesse fazer sentir tão triste a sua partida, o seu sofrimento e sobretudo a sua ausência. O Fluffly quando lhe pediam a pata ele dava a pata, nos ultimos dias quando o pediamos ele punha a pata para trás, como dizendo, já não te posso dar a para. As suas orelhas peludas e fofinhas deste Serra da Estrela, era como um indutor de relaxamento, para quem lhe fazia festas. Faz-me falta.  Dou comigo a ter os mesmos comportamentos como se ele ainda ali estivesse. Fazes-me falta.

O que espero da vida, espero-o há muito tempo. Não no sentido de projecto de vida, pois esse foi totalmente preenchido pelo nascimento da minha querida filha. Mas o que espero do amor ou o que o amor me dê. São pequenos gestos, pequenos demonstrações de "tu és importante", "tu contas" e "eu estarei sempre ao teu lado". Já abdiquei de muita coisa na vida. Já perdoei muitas vezes. Já ultrapassei muitos desaforos a pessoas que são mal formadas e que estão na vida como um acção está na bolsa, Tudo tem um valor, e até podemos trocar, mas a seu tempo, quando sobre ou desce. Mas a vida também já me ensinou que não chega perdoar. As pessoas vão repetir as mesmas acções ou palavras.
Não há nada pior na vida que um ser humano que na sua condição de imortal acha que pode dizer tudo o que lhe vai alma e depois a seguir pedir desculpa. Nada retira aquelas acções ou aquelas palavras. A partir daí só o gesto de querer fazer um pouco melhor pode contar.

Já fui amada por muitos. Muitas paixões assolapadas passaram por mim, dessas paixões existiu sempre o amargo que se não forem compensados na devida visão própria, tornam-se vingativos e dão um retorno de nada mais tenho para dar.

Amor não é dar. Amor é cuidar. Amor para mim é a troca de um momento que é naquele momento que é preciso. Nada passa duas vezes, nada acontece duas vezes. Amor para mim é quando mesmo quando tudo corre mal, está lá alguém que abraça, cuida e sem moeda de troca em silêncio da sentir o seu amor.

Sou parca na manifestação do amor. É um estilo. Não sou de grandes manifestações de carinho. Não tenho grandes planos de surpreender ou de planear coisas românticas. Mas estarei sempre lá quando é preciso. E mesmo quando não é preciso.
Preciso de pouco e pouco ou nada peço. Como alguém me disse não tenho esse direito. Fi-lo há pouco tempo. Pedi. Pedi apenas porque precisava de um abraço, de um espaço, de  um tempo, para me refortalecer. Não veio, não havia. O que pedia era um grande sacrifício ao qual não tinha direito de pedir. Bem verdade! Não tenho o direito de pedir nada a ninguém.
E assim vai o amor dos humanos, sempre cheio de contra partidas, muitas palavras azedas de revolta, muita vingança e muito pouca vontade de fazer algum tipo de concessão sem nada em troca.

Tenho saudades de ti FLUFFY nunca me pediste nada em troca. Como a Brigitte Bardot dizia: Quanto mais conheço os humanos mais gosto dos animais. O que me parecia na altura uma loucura, hoje, revejo-me, compreendo e sinto que é no amor incondicional que estará a verdadeira essência do amor. O amor que só os animais nos podem dar.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Primeiro estranha-se e depois entranha-se


De regresso a Angola. Passou um ano e três meses, desde a última vez.

Ao fechar as malas existe aquela sensação de missão. Não é uma viagem cultural. Não é uma viagem de lazer. Nem sequer uma viagem de trabalho qualquer. É uma viagem em que temos de começar um projecto de raiz num pais que não conhecemos e com uma cultura em muitos aspectos completamente diferente da nossa, isto num país que, viveu, ainda há doze anos mergulhado numa guerra civil de trinta e oito anos. 

É o povo. O povo, a matéria mais indiferenciada, que sofreu. Sofreu, não só na fome, mas na habitação, na educação e desenvolvimento cognitivo, na saúde e principalmente na família. Sofreu, sobretudo porque lhe retiraram o pensamento. A capacidade de pensar e reflectir para além das necessidades básicas. A capacidade de pensar com liberdade intelectual. Aprendeu-se a não pensar. Existe um instinto de sobrevivência marcado e perceptível em todos. A capacidade de construir uma identidade una em cada um é raramente identificada. São todos uma grande massa. São indiferenciados. São repetidos. A identidade construída é igual para todos. Humildade. Necessidade de agradar. O sim a tudo, mesmo que não sintam ou não queiram e sobretudo que saibam que nem o vão fazer. O "sem pensar" esconde o medo de trinta e oito anos de guerrilha. Dizem que os mais velhos, não acreditam que a guerra acabou. Pois passados doze anos está tudo pior. Não sei como era, mas percebo o pior.

Não é uma viagem qualquer. 

Com ansiedade de ver, observar e compreender o que está por detrás de cada comportamento, motivo-me a ir. Sobretudo o desafio de fazer com sucesso o projecto e retornar sem nenhum dano.

Quando saímos do aeroporto o cheiro é inconfundível. Cheira a África. Um dia disseram-me isto e eu fiquei a pensar: que estupidez! Como se houvesse um cheiro de África. Mas existe! E entranha-se. Existe algo por detrás deste cheiro, uma liberdade inenarrável.

Fazemos mais duzentos e cinquenta quilómetros até à província de Kwanza Norte, N'Dalatando, (antiga Cidade de Salazar), mais propriamente. Numa estrada de apenas uma faixa de alcatrão, sem bermas, circunscrita pelo capim verde e feita por construções chinesas que abre crateras nos dois sentidos, desconfiamos.   É preciso cuidado, muito cuidado. É o nosso motorista que o diz, conformado. Depois de uns vinte quilómetros a rede de telemóvel perde-se e perde-se. Passam-se mais de cem quilómetros sem rede. Olho constantemente para o telemóvel para ver quando temos rede. Penso que se existir alguma fatalidade, será isso mesmo uma fatalidade. Sem o socorro do 112 ou bombeiros. Não se sabe o que pode acontecer, quem nos socorre. Os camiões passam descontrolados, há ultrapassagens loucas e vai-se vendo carros acidentados aqui e ali.


A contrastar com este pensamento de fatalidade, começamos a avistar a paisagem do norte de Angola. As montanhas e os montes carregados de floresta verde e densa, quase indivisível. Os Embondeiros esguios irrompem entre a vegetação subindo ao céu, com os Múkua pendurados como se de um adorno se tratasse. É extasiante de magnifico. É mais do que magnifico, é África ainda pura. Não há musseque, nem vendas loucas, não há transito nem o cheiro a gasóleo. Ao longo da estrada vamos vendo povoamentos em cubatas de barro, telhados de zinco seguros por tijolos ou telhados de capim seco. Não são mais que vinte ou trinta cubatas em cada povoado. Com pequenas vendas que cada um faz, carpo da lavoura. São dez ou quinze peças de cada legume. Entre a exposição escassa e sem abundância. São tomates. São batatas. São gindungos. Não há muita variedade. Escasseia tudo. É peixe quase podre de tantas moscas pousadas e do calor insuportável. São dois ou três macacos pendurados. As caras apáticas, por detrás dos alguidares coloridos da venda, não fazem por vender, esperam só.
- É uma carne boa, seca. Diz o nosso motorista, quando expresso a minha surpresa de se comer macacos. Mas é um animal selvagem? Tudo se vende, sem rótulos, prazos de validade, sem embalagem e sem tabelas. É o mercado livre que sustenta todos, num país sem trabalho e que fora de Luanda quase sem esperança, sem alento, mas que ninguém se queixa ou chora ou lamenta.

O povo está conformado. Sobrevive.

Estamos quase a chegar perto da capital da província, N'Dalatando. Sinto-me mal disposta, mas feliz pela paisagem deslumbrante que vou usufruindo até chegar ao destino.
Vislumbro uma extensão de musseque na paisagem. Barrento e zincado. A cidade é feita praticamente de musseque. A primeira imagem que me vem à memória é Serra Leoa. Parece um campo de refugiados. Ao entrar na cidade lá se veem as construções coloniais e do Estado Novo. Sinto a clivagem total entre os portugueses e os angolanos. Ainda ali, não são só vestígios, são as únicas construções de estrutura de cimento, organizada, coloridas que existem. O resto é uma massa de barro disforme com telhados de zinco. Estivemos ali e construímos bem. Vê-se um edifício apalaçado, com cópula e colunas de mármore na entrada, agora é a sede de um banco, tudo meio destruído e sem qualquer manutenção. Estão praticamente ao abandono. Vê-se outro imponente, em amarelo, é o governo da cidade. Outro o hospital. Tudo o que é decente, do ponto de vista arquitectónico é colonial. Ainda não chegou o progresso da aclamada paz à cidade de N'Dalatando.

Estamos instalados num "hotel", cujos quartos parecem quartos de apartamento de aluguer, todos diferentes, sem os padrões hoteleiros, sem chave magnética, por entre corredores labirínticos carrego uma chave com um pedaço enorme de madeira e subo, pelas escadas, até um segundo andar uma mala de vinte quilos. Construídos com materiais diferentes de quarto para quarto, sem um projecto por detrás, assim se sente. Quando abro o quarto que me foi designado, o sentimento de desalento assola-me. O cheiro bafiento que sai da porta é nauseabundo, a penumbra que as cortinas pesadas de pano verde com umas flores castanhas fazem sentir. Acendo a luz, abro as cortinas. Não sei por onde começar. Desfaço a cama até aos pés e claro, indescritível. Munida de uns lençóis e uma almofada começo o makeover do quarto que me foi destinado nas próximas semanas. Vou à casa de banho e constato que não há possibilidades de makeover. O banho tem de ser de havaianas e a porta tem de estar sempre fechada.  O cheiro é tal que para dormir tenho de pôr perfume nos cantos do nariz para disfarçar. Após alguns dias já me tinha habituado... ao ritual do perfume e a tudo menos bom. 
Esta narração menos boa, abre uma infinidade de oportunidades, porque tudo o que vier melhor é bem-vindo e pouco expectante, funciona como uma dádiva.
Assim foi, num dia que pudemos descemos a Kilombo, situado na reserva da florestal tropical da província, vemos o melhor que Angola nos pode oferecer. Percebemos agora porque se chama cidade jardim. Esta floresta densa e imponente encerra em si plantas, flores e árvores que nunca vi. Uma vastidão que apenas de jipe é possível percorrer, diz que tem todos os animais selvagens. Mas nunca vimos. Diz-me que pelos anos prolongados de guerra os animais fugiram e serviram de alimento.
Uma das belezas: a rosa de porcelana. Uma espécie de flor com uma composição dura e emborrachada, magnifica de cor-de-rosa pálido. Vendem-se ao chegar. São as Mafumeiras e os bambús gigantes, uma selva, com os riachos a contornar a e a passar no meio da floresta tropical, que nos transportam, ouvem-se os gritos dos pássaros. Escura e húmida, as árvores multiplicam-se, na floresta. 
Por fim a quedas Kalandula. É preciso ir e ver. O som da água a cair faz-nos falar mais alto, sem darmos quase por isso. Sente-se a frescura dos salpicos, na cara, da água que cai pela encosta. Sente-se a natureza como não se sente no nosso dia-a-dia. Com força, vibrante e faz-nos pequeninos. 
O melhor.

Mas o que quero memorizar nesta viagem é outra coisa. 

É domingo de Páscoa! O motorista que sabe que sou católica convida-me para ir à Missa. Aqui, posso dizer que tive a honra de participar na missa católica da congregação de N'Dalatando. A igreja cheia. Domingo de Páscoa. Os meninos e meninas vão ser baptizados. O sacramento do baptismo é feito depois de três anos de catequese. Vestidos com a sua melhor roupa de cerimónia. Eles com os fatos pretos esgarçados, rotos,  gastos, tamanhos pequenos para a idade e também grandes e alguns um pouco sujos, todos de gravata, laço preto e camisa branca amarelada e coçada. O seu melhor e mais digna indumentária para a Páscoa e receber o sagrado sacramento. Elas em vestido de noiva várias vezes usados, cheios de luzinhas, pérolas e rendilhados, com o cabelo arranjado, com ganchos de flores brancas grandes e pequenas que descem pelas caras negras e brilhantes. Todas de meias brancas pelos joelhos e luvas de todos os feitios, rendas e bordados coçados e descolorados. Todas bonitas e sorridentes. 
Hoje é um dia especial. O dia em que são recebidos pela comunidade católica e que mostram o orgulho de pertencer.
Fomos recebidos com a humildade que caracteriza o povo angolano. Igreja cheia, estavam cerca de mil pessoas, mulheres, homens e crianças de todas as idades. Mal se conseguia romper ou ver o altar. O nosso motorista pôs os seus contactos em marcha e mesmo depois de uma igreja apinhada de gente, lá fomos catapultados para a frente e logo nos arranjaram duas cadeiras de plástico branco no palanque, praticamente em frente ao altar. Éramos os únicos pulas, portugueses brancos, éramos bem-vindos. Partilharam connosco a sua riqueza. Rezamos juntos.
O ritual da missa foi surpreendentemente diferente do nosso. Mal se iniciou o ritual, percebíamos que estávamos em África. Os batuques dos tambores, as matracas, as vozes africanas, com gritos e sons de uma alegria que nos contagiava e emocionava. 
Uma missa espectáculo. Cantaram a missa toda em Kimbundu e em português. Dançaram. Ofereceram aos mais paupérrimos o que podiam. No ritual das oferendas que conhecemos na missa e que com rotina sem pensar deitamos dinheiro dentro de uma cesta. Aqui o povo descalçou os sapatos em sinal de respeito por quem têm menos e na cesta das oferendas deram o que tinham, ovos, amendoins, batatas, bancos de plástico, cadeiras. O que me emocionou foi saber que quem ofereceu também não tem nada, mas o pouco que tem reparte.
Não tenho sequer palavras para descrever a simplicidade e humildade que assisti. Estamos tão longe deste humanismo. África estranha-se e depois entranha-se. Percebo agora o magnetismo que exerce. Tudo o que é menos bom torna-se um detalhe com pouca importância.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O Narcisico

Sempre quis escrever sobre o narcisismo, ou sobre aqueles que estão apaixonados consigo próprios. Eis que me deparei com uma oportunidade singular.
O narcísico…
A paixão do seu eu, da sua própria pessoa enquanto ser que interage não deixa de ser profundamente, dependente dos outros.
A construção do eu narcísico acontece muito cedo, mas a exacerbação na idade adulta é uma imagem de si próprio imperfeito e singularmente partida. Pois o ser narcísico, aquele que é perfeito em si mesmo, encerra uma contradição absolutamente angustiante, uma vez que constrói um exagerado culto de si próprio, de uma auto imagem perfeita e protectora do seu eu amado ser e só o poderá fazer por comparação. Triste comparação, uma vez que a selecção do que se compara é aleatória e pressupõe uma consonância cognitiva encapuzada constante.

O ser narcísico começa a espalhar-se, a disseminar-se como se de uma doença colectiva se tratasse. Quase todas as plataformas de redes sociais, têm este efeito. Conseguem hiperbolizar o ser narcísico e de repente quase todos dão por si a projectar ou a tentar projectar uma imagem de perfeição e de unicidade do seu eu.
O que escrevemos ou o que se partilha tem a intenção de glorificar o eu, de congelar o momento conseguindo uma grande experimentação do ego. Consciente ou inconsciente a capacidade de conseguir despertar no outro uma grande admiração e adoração por tudo o que o que se projecta em conteúdos.
Ficámos mais pobres… Onde está o verdadeiro narcísico aquele que busca a perfeição ou a elevação do seu eu sem objectivação?

A minha história começa aqui

Fui-me limitando ao sabor dos acontecimentos, agarrando e explorando as entranhas de alguns episódios e outras de vezes as situações foram-me passando ao lado. Sei pelo menos o que não quero.


Sinto-me por vezes alienada, fechada dentro de um corpo que tem de fazer o que tem de fazer, o que se espera, o que é preciso fazer. Gostava de libertar-me, de soltar-me por ai, de saltar e pular aqui e ali, onde me apetecesse… só para me conhecer, saber quem eu sou. Vivo há tantos anos neste corpo, masacho que ainda não sei quem sou. Tenho medo de viver no pleno do querer.

Os anos foram passando, tinha alguns sonhos, mas todos ficaram a meio. A meio se calhar já é bom, mas não sei.
Quando comecei a sentir-me gente, não sabia o que gostava ou o que queria. No entanto, todos e todas à minha volta gostavam disto e daquilo, cantores, bandas, cinema, roupa, rapazes e raparigas. Eu não queria nada, nada me ocorria que gostasse ou que quisesse. Que coisa estúpida. Achei que se rapidamente não  conseguisse resolver o que gostar, de quem gostar, colocar um rótulo, colocar um formato sobre mim, ia ser um problema. Não queria ficar à margem, à margem também não sei bem de quê, mas sabia que não queria estar de parte, por não gostar disto e daquilo, apesar de saber que quase sempre estava de parte.


Das primas era a mais nova, a mais magra, a com o cabelo mais comprido que me chupava, a mais tímida, a menos faladora, enfim, quase não me encaixava em lado nenhum, não fosse ser loira com uns olhos verdes tristes e marcantes acho que ninguém reparava em mim.

Com excepção da minha mãe. Adoro a minha mãe. Desde pequena que me leva a todo lado, passeava sempre com ela, e quando estávamos em algum lado, ela deitava sempre um olhinho em mim para sentir se não eu estava muito perdida. Protegeu-me em silêncio e eu gostava, admirava-me por ser silenciosa, por nada exigir, nada querer e nada criticar. Não tenho nada haver com o resto da família, é como se fosse uma espécie de uma adoptada que lhe calhou a ela.

À tarde gostava pentear o meu longo cabelo loiro, como se fosse uma espécie de adorno que tem de se tratar para não mudar de cor. Adoro a minha mãe. Todos os fins-de-semana fazia um bolo ou uma torta, todos os fins-de-semana era uma espécie de festa. Mas às vezes ficava triste… lá tinha eu de ir para casa das minhas primas, com a minha irmã e todas gostam disto e daquilo, deste e daquele e eu não tenho nada para dizer. Que inferno. Não sei de que cantores gosto, a roupa pouco me importa, não tenho ídolos, não colecciono brincos, nem sei músicas de cor, não tenho calças à boca-de-sino, nem calças de ganga.

Mas se pensar bem, gosto de me deitar ao sol a ler o livro dos Cinco, ou a recortar revistas com letras diferentes. Gosto comer fruta das árvores e andar descalça. Gosto de fazer festas em cães e gatos que andam na rua e de ir a Espanha comprar caramelos e chocolates. Gosto quando a minha mãe me penteia e me leva a passear. Gosto de sentir o vento quente de Setembro, vestida com as minhas jardineiras e umas tranças para o cabelo não me tapar a cara. Gosto de andar de bicicleta de ir à praia e deitar-me em cima da areia quente e tomar banho no mar às horas que quase ninguém está na praia.

Acho que a melhor sensação do mundo é sentir e ouvir o vento quente, que nos acaricia o corpo, nos repousa como se o tempo parasse e só nós importássemos. Gosto destas coisas, apesar de não ter cantores favoritos, gostar de actores bonitos que fazem as delícias das adolescentes, não usar as calças à boca-de-sino.  Se calhar sou muito nova, ainda uma criança sem me poder identificar com nada, só com a minha mãe. Adoro a minha mãe.

Detesto a cidade, grande e barulhenta onde ainda fico mais incógnita do que já sou, não há vento nem areal, não há cães e gatos a passear sozinhos, não há fruta nas árvores e não posso andar de bicicleta.

A minha história começa aqui. 

CAPITULO 1

                               

O vento ainda quente, do longo Verão que estava quase no fim, fazia rodopiar as poeiras do chão, juntamente com papéis e pacotes de comida, as ruas estavam vazias. Ainda se sentia um cheiro quente de terra seca, com salpicos de praia. Ao longe, ouvia-se o vento nas árvores e uma ambulância que se sabia a correr em aflição para algum hospital. Caminhava cada vez mais apressadamente. Sentia-se inquieta e vazia. Parecia que sabia para onde ia, mas na realidade não tinha um plano.

Ainda há três dias, estava no seu castelo, no seu mundo de seis metros quadrados, pintado de azul e branco, com umas listas largas, algumas tortas, que ficaram depois de tirar a fita. Mas a harmonia que se vivia entre almofadas, caixinhas, prateleiras de livros e discos, colares pendurados nos espelhos, entre chapéus e echarpes, dava-lhe a sensação de segurança. Os posters cuidadosamente colados a mostrar o ideal de beleza inatingível dos cantores, davam o toque de rebeldia. Ali estava, fechada com os livros e a sua música, nada mais interessava, nada mais havia. Pela casa voava um cheiro a bolos de laranja, sentia-se o calor do forno, era acolhedor e confortante. Ali, naquele pequeno mundo nada podia atingi-la. Colocava a música mais alta, assim acordava as emoções que queria sentir. Era Enola Gay dos OMD. Estava feliz. Sentia-se radiante. Aquele sentimento que perpetuava sempre que se sentia bem.

Numa quarta-feira tudo mudou.

Agora, tinha de andar mais depressa, tinha de resolver o que acha que viu. Nunca tinha visto nada assim. Foi como se quebrassem o seu mundo, como se destapassem o véu do Érebo. Mal sabia o que pensar e o que dizer. Reinava um silêncio calado por todo o lado.

Aconteceu quando saia das aulas com as amigas e desciam, como sempre, a Rua Jardim do Regedor para a estação dos Restauradores, viu o que nunca devia ter visto. Viram o que nunca esperaram ver. Foi como se o que viram fizesse ruir tudo nas suas vidas. Não fazia sentido.
Naquele dia, como outro igual, iam todas estudar para casa da Sílvia. Não era bem estudar, fumavam cigarros às escondidas e falavam de rapazes, coisas proibidas, mas animadamente, como se ao se ouvirem concretizassem as suas paixões. Todas queriam saber quem gostava de quem. Riam parvamente daquilo que achavam que era os defeitos dos rapazes, como se isso lhes desse poder sobre eles. Era as calças que eram foleiras ou as camisolas com bandas de heavy ou o cabelo que era curto ou os ténis… Horrendo. Mas também havia aqueles que tinham camisas de xadrez, com calças de ganga 50, com os ténis e o cabelo certo, que nos faziam suspirar. Mas naquele dia, só Leonor fumou e ninguém falou. Era um silêncio de medo e de perturbação. Ninguém queria falar, ninguém tinha vontade de falar sobre o que aconteceu, sobre o que nos aconteceu. A partir daqui nunca mais iria ser nada igual. Neste dia sem fim, sem palavra ou memória, restou o desfazer dos sonhos. O sentir da entrada violenta de uma realidade esmagadora.
O que poderia ter acontecido? Como poderia ter acontecido uma coisa daquelas? Como? Como é que alguém podia ter invadido a vida sem razão, sem permissão e sobretudo sem aviso. Parecia que o seu mundo ficara de repente sombrio e finito. Nunca tinha pensado na morte. Sabia que morríamos, mas só os velhos, não aqueles que são jovens, atraentes e que radiavam entusiasmo. Causava-lhe agitação saber que alguém que já tinha falado, rido e brincado, estava agora morto. Mas como? O que poderia ter acontecido? Passou o dia todo a pensar nisto a interrogar-se por que razão acontecia e como poderia ter acontecido. O Miguel era tão divertido, sempre falador e cheio de charme. Era o rapaz mais bonito da escola. Quando ele entrava todos olhavam para ele. Ser seu amigo era como ser também bonito e irradiar aquela luz de excitação de ser e estar.

Quando desciam a rua, entre dois carros, lá estava ele irreconhecível. Tinha a cara esmagada e estava sujo, faltava-lhe um sapato e tinha o fecho do casaco meio arrancado. O sangue escorria-lhe pelo cabelo e empapava os caracóis loiros. A pele da cara tinha sangue escuro e seco, numa expressão sem vida e sem existência. Já não parecia bonito, nem parecia ter aquela luz que todos queriam.

Intrigada, surpreendida e amedrontada. Sentiu um formigueiro a invadir-lhe o corpo e sem controlar o medo, caíram-lhe as lágrimas pela cara, em silêncio.

Interrogava-se vezes sem conta como poderia ter acontecido isto com o Miguel. Não com alguém que conhecesse. Isto parecia uma coisa de filmes. Parecia uma situação dos telejornais. Como poderia ter morrido tão violentamente?

Mal conseguia dormir, agitada na cama, sem posição, aquela memória não lhe saia do pensamento. Parece que em tudo o que fazia era atormentada pelo corpo desfalecido, mal tratado e imperturbável. A vida ficou com outro significado. Um significado de fragilidade e de incógnita. Agora já nada sabia, vivia atemorizada com o que poderia acontecer. Mas os dias passavam e parecia que cada vez tudo fazia menos sentido. Foi assim que percebeu que por muito que se esteja ligada às pessoas, nunca se conhece tudo ou o que parece não o é verdadeiramente.

Saia de casa impaciente, era sábado. Quis voltar aquele sítio onde o tinha visto pela última vez. Estava compelida a regressar. Não conseguia pensar noutra coisa. Parece que o medo se sobrepôs à curiosidade de saber a sua maior interrogação.

Quando chegou, ao caminho que fazia quase todos os dias, olhou pela primeira vez com olhos de ver. A rua era suja e vazia. Já não parecia uma rua típica de Lisboa. Parecia uma rua abandonada, sem som, sem gente. Só conseguia ouvir o vento nos cabelos.

Uma fila de carros estacionados, que nem faziam sentido. Onde estava toda a gente? Nunca tinha olhado bem para aquela rua, por onde passou inúmeras vezes, na realidade nunca tinha olhado. Ao olhar de cima da rua, via prédios antigos pequenos velhos e quase abandonados. Uns estavam tapados por estar devolutos. Outros ainda tinham meia vida. Na rua havia um sapateiro, que fazia também chaves, era tão pequena a loja que só cabia um cliente de cada vez e tinha um aspecto sujo e desarrumado, como se fosse impossível encontrar qualquer coisa. Mesmo em frente ao lugar onde viu o Miguel pela última vez, estava um prédio velho com uma porta verde-escuro, quase preta, gasta na tinta nos cantos e com um ar pesado de quem nunca era aberta, cheia de pó seco da estrada, as janelas estavam fechadas. A calçada estava suja, cinzenta e pingava aqui e ali de líquidos peganhentos de um pouco de tudo, uma vez que havia uma tasca mais abaixo e que quando passávamos tínhamos os cheiros de vinho azedo, o chão sempre cheio de papéis e com um ar desmazelado, gasto e desarranjado.

A rua parecia despovoada. Desolada.

Enquanto estava ali a olhar, parada, à espera que alguma coisa exprimisse algo. O vento batia-lhe no rosto e fazia-lhe arrepios do cabelo lhe tocar na face, arrependeu-se de estar ali, queria fugir e afastar-se o mais rapidamente que conseguisse.

Mas estava estática até que alguma coisa lhe tocou no ombro e deu um salto e sentiu os ácidos da adrenalina a bloquearem-lhe os movimento e ao mesmo tempo saiu-lhe um grito seco. Sentiu outro arrepio com tremor a subir-lhe pelo corpo. Olhou e viu o Zé. Descomprimiu. O Zé era um rapaz calado e muito inteligente. Era o melhor da turma. Nunca faltava às aulas ou se juntava a grupos depois das aulas. Era raro falar. Estava sempre a ouvir música com os headphones na cabeça e a rabiscar qualquer coisa. Tinha um cabelo meio despenteado, castanho dourado e comprido a tapar-lhe o rosto. Acho que nunca tinham falado antes. Acho que nunca tinha olhado para ele tão perto.

- Desculpa! Assustei-te? O que é que estás aqui a fazer a um sábado? Perguntou o Zé.

- Nada. Respondeu. E tu?

- Não sei. Não tinha nada para fazer e resolvi passar por aqui. Agora já nunca passo por aqui. Vou pela Rua dos Condes.

- Tens medo? Perguntou-lhe

- Não sei. Acho que não é isso. Tenho a sensação que se não passar por aqui parece que não aconteceu. Eu nem era amigo dele. Respondeu-lhe.

- Mas hoje vieste?

- Bem tenho de ir Constança.

- Espera, vou contigo.

O Zé queria fugir, mas a Constança também. Desceram a rua em silêncio, em passos largos. O Zé andava cada vez mais rápido como se não quisesse ter companhia. Mas como a Constança  só queria desaparecer dali nem se importou. Quando chegou à estação dos comboios sentiu uma espécie de alívio, mas o vazio continuava, com uma sensação de desorientação. Sentou-se num banco e o Zé sentou-se em frente do lado oposto, escorregou pelo banco. Não falaram. Ele pôs os auriculares e a música ouvia-se, estava tão alta. Assim era impossível pensar. A Constança só queria chegar a casa e não pensar em mais nada. Ligar a música e deitar-se com os olhos fechados na esperança que tudo desaparecesse. Quando o combóio chegou a Sintra e olhou para o lado já o Zé tinha saído. Via-o todos os dias no comboio, mas nunca falaram e este foi mais um dia.