quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O amor que te dei

Houve um amor que se deu. Um amor cheio de sentimento e vontade de viver. Era um amor que se construiu, como quem constrói alicerces e que se continuava a construir algo arquitectonicamente maravilhoso. Como a Sagrada Família em Barcelona. Nunca há-de estar totalmente construída, mas cada vez que se constrói mais um pico, mais uma torre, mais um ornamento, fica mais bonito e mais imponente. Sente-se maior e mais forte. Assim ia o amor que te dei. Este amor era ingénuo. Não creio que possa existir verdadeiro amor se não for ingénuo. A ingenuidade de quem se entrega com total entrega. Feliz porque está a dar aquilo que de melhor tem. Não existe maior riqueza que o amor que alguém entrega a outra pessoa. A ingenuidade de achar que a quem se entrega o amor percebe o quanto precioso este amor é. 

O amor que te dei era sólido. Era um amor cheio de vivacidade e cheio de vontade de viver até ao tutano. Era um amor exclusivo. Sempre a pensar em ti e para ti. Fui construindo o teu espaço na minha vida. Fui deixando-te entrar no meu coração, deixando-te entrar na minha alma. Ocupaste tudo em mim. Dei-te tudo o que tinha.
Quando olhei, quando percebi, quando senti o teu amor. Já era tarde. O amor que te dei estava no chão.

De vez em quando apanhavas e punhas no bolso.
De vez em quando punhas ao peito.
De vez em quando mandavas para trás nas costas.
De vez em quando querias, de vez em quando não, de vez em quando não percebias.

O amor que te dei, este amor, era só teu. Ninguém mais teve este amor. Quando te comecei a amar, comecei a escrever-te coisas bonitas.  Quis manifestar, expressar e partilhar este sentimento tão raro de sentir. Achava que ias perceber esta dimensão do meu amor, acarinhá-lo, tratá-lo, cuidar dele e sobretudo gritar ao mundo, bem alto, bem firme. Eu tenho o amor dela. O amor dela é o melhor de todos, porque é meu e porque é forte e porque é dela, e porque é bonito e cheio de vontade de crescer. Eu tenho este amor e mais ninguém tem um amor tão bonito como o meu.
Mas isso não aconteceu. O amor que te dei está no chão. Assim encolhido e mal tratado pela vida que tens, que sentes, que sabes, que queres e que gostas.

Tão mal tratado foi o amor que te dei. Agora está perdido por aí, sem ter onde acentar, quer se escapar e quer fugir. Porque sabe que afinal o amor não era tudo nem era o mais importante, nem era a força que supria todas as dificuldades.

Era simplesmente.

Assim vai o amor que te dei.